Política econômica


 
 

Política industrial: vertical ou horizontal?

 

Há um falso e velho debate que contrapõe alguns economistas defensores de uma política industrial "vertical" (que beneficia com empréstimos a juros baixos direcionados a alguns setores específicos, considerados como estratégicos) e outros economistas que advogam uma política econômica "horizontal" (que beneficie todos os setores, de forma indistinta).

É o tipo de debate que simplifica uma questão complexa (um erro às vezes pior do que dificultar uma questão simples).

Sobre o assunto, me recordo de uma resposta que Stiglitz deu à uma pergunta feita por um jornalista brasileiro de uma conceituada revista de negócios.

Isto ocorreu em 1999, cerca de dois anos antes de ele ganhar o Prêmio Nobel (junto com Akerlof e Spence).

O jornalista perguntou se o uso de políticas industriais seriam adequadas ao caso brasileiro.

A resposta de Stiglitz revelou um certo espanto quanto à obviedade da pergunta: "Claro que sim, por que não?".

Alguns economistas que consideram que as chamadas políticas horizontais, que beneficiam todos os setores ao mesmo tempo, seriam mais eficazes do que a definição de setores prioritários para o investimento público.

Em geral, são economistas pertencentes às tradições neoclássica, novo-clássica ou liberal.

Outros economistas, em geral keynesianos, defendem que a política industrial deve ser vertical e beneficiar setores estratégicos, capazes de ampliar as economias de escala, as externalidades de rede e as economias de escopo dos mercados mais relevantes (em termos de geração de emprego, capacidade inovadora ou potencial exportador).

As críticas dos primeiros citados à essa visão em geral centram-se nas questões referentes aos efeitos colaterais do "rent-seeking", das políticas de "escolha dos campeões" e do uso político de tais investimentos públicos (temas atuais nas discussões do papel do BNDES).   

Mas o assunto deste artigo não é o BNDES e sua falta de transparência, mas o que preconiza a teoria da política econômica sobre a políticas industriais horizontais e verticais.

Assim, sabe-se uma política industrial que eleja alguns setores-chave (sem "escolha de campeões", mas de forma transparente e complementar aos bancos privados),  não exclui a necessidade de uma política econômica horizontal.

Na dúvida entre optar entre uma e outra, contudo, convém ficar com as políticas horizontais que melhorem a infra-estrutura, reduzam a burocracia, aumentem a segurança jurídica, aprimorem a capacidade inovadora e,  finalmente, melhore o que se convencionou chamar de ambiente de negócios.Na situação brasileira atual, de forte restrição fiscal, convém optar pela segunda, que pressupõe reformas liberalizantes. 

No entanto, as duas políticas, se bem implementadas, podem coexistir e gerar sinergias entre si. A Coréia do Sul, o Japão, a França, a Finlândia, a Suécia, a Alemanha e mesmo a China combinaram políticas industriais verticais com políticas econômicas horizontais (sobre o assunto, o leitor pode consultar os livros "Kicking Away the Ladder", de Ha-Joon Chang, e "A Vantagem Competitiva das Nações", de Michael Porter).

Ricardo Haussman, um renomado especialista em política industrial, também adota esta posição.

Haussman é um economista que já foi formulador de política industrial e que hoje leciona em Harvard. Foi ministro da Coordenação e Planejamento da Venezuela no início dos anos 90 e pesquisou profundamente as cadeias produtivas da América Latina.

Cabe uma citação de Haussman, para o qual uma política industrial legítima para o restante da sociedade não diretamente beneficiada por ela, é aquela que atende aos seguintes requisitos:

O primeiro é que se foque em atividades exportadoras e não em favor de um concorrente específico do mercado interno que indique uma prática protecionista. Além disso, requer certos princípios, como o da arquitetura aberta, no qual o governo tem de estar disposto a falar com a sociedade de acordo a como ela esteja disposta a se organizar e não somente com os grandes grupos, com associações organizadas. Em segundo lugar, o governo tem de melhorar sua participação em áreas de sua responsabilidade como o direito à propriedade , marcos regulatórios, sistemas de certificação, infra-estrutura, política de apoio às universidades etc”.

O primeiro critério de Haussman (o foco em atividades exportadoras) depende de uma taxa de câmbio minimamente competitiva, do crescimento da demanda mundial, de investimentos (em infra-estrutura, logística e P&D), da redução da burocracia aduaneira e de um maior grau de abertura econômica. A taxa de câmbio pode até ser um instrumento meramente acessório quando as outras condições citadas são favoráveis.

O atingimento do segundo critério de Haussman é muito mais complexo e envolve o lento aprimoramento da eficácia dos arranjos institucionais. Esse é o único  caminho para um melhor ambiente para os negócios. Tal aprimoramento está associado à uma reforma política que permitiria maior velocidade na aprovação de medidas de modernização dos sistemas tributário e previdenciário.

A concessão de financiamentos de longo prazo a taxas menores para empresas dos setores exportadores e mais competitivos, tal como tem feito o BNDES, é um instrumento que não deve ser descartado. Todavia, trata-se de um mecanismo acessório e não estruturante (como seriam as reformas capazes de criar um melhor ambiente de negócios que beneficiasse todas as empresas).  O instrumento dos empréstimos direcionados de longo prazo é necessário para a sustentabilidade do crescimento brasileiro. Todavia, ele não é o instrumento suficiente para garantir esta sustentabilidade, de acordo com os dois critérios definidos por Haussman.

Enfim, o que turva esse importante debate é a postura de, por um lado, economistas francamente contrários às políticas de empréstimos do BNDES (sim, também acredito que houve excessos críticos, sobretudo pela falta de transparência,  nos últimos anos, mas é pouco razoável pensar em política industrial sem os financiamentos do BNDES) e, por outro, economistas que superestimam o papel desse banco de desenvolvimento que, por importante que seja, não pode se constituir em monopolista do fornecimento de créditos de longo prazo ao setor produtivo.

Assim, o ponto mais importante do debate, que a complementaridade entre as duas políticas, fica obscurecido pela ideologização dos temas aqui mencionados. 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h31
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Definição alternativa de inflação

 

 

“Inflação é quando você paga cinquenta dólares por um corte de cabelo de dez dólares pelo qual você costumava, quando tinha cabelo, pagar cinco. “ 

Sam Ewing (1921-2001), escritor e jornalista norte-americano.

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h34
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A Lei de Murphy da política econômica

 

 

“A Lei de Murphy da política econômica: os economistas têm pouca influência sobre a política econômica onde eles sabem muito e concordam bastante; eles têm muita influência sobre a política econômica onde eles sabem pouco e discordam de modo veemente.”

Alan S. Blinder (nascido em 1945) - economista norte-americano especialista em economia monetária.

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h26
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Previsões econômicas

 

 

"Todos haverão de concordar que a economia, da maneira como é praticada, preocupa-se obsessivamente com o futuro. A cada mês nos Estados Unidos, homens e mulheres reconhecidamente cultos e inteligentes espalham-se pela nação para apresentarem suas opiniões sobre as perspectivas econômicas e também sobre o panorama político e social. Milhares lhes darão ouvidos. Os administradores e suas empresas pagarão caro pelo privilégio de conhecerem estas visões e, se forem sábios, tratarão os conhecimentos assim adquiridos com inteligente descrença. A qualificação mais comum dos prognosticadores econômicos não é o saber, mas sim o não saberem que nada sabem. Seu maior trunfo é que todas as previsões, certas ou erradas, são logo esquecidas. Há por demais delas e, se o lapso de tempo for suficiente, não só a memória do que foi dito terá desaparecido, como também desaparecerão um número considerável daqueles que fizeram ou ouviram tais prognósticos. Como observou Keynes: 'A longo prazo estaremos todos mortos.' "

John Kenneth Galbraith (1908-2006), economista canadense.

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h14
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Os dilemas europeus de política econômica

 

Alguns economistas europeus recomendam a elevação da despesa pública por parte dos países do bloco europeu e criticam a política econômica defendida por Angela Merkel para remediar os efeitos da crise europeia.

A Alemanha defende a combinação de reformas institucionais que reduzam os custos da empresas do bloco europeu e política fiscal contracionista. As razões apontadas pelos alemães apontam para a noção de que a crise europeia possui, na maior da parte dos países envolvidos, natureza predominantemente orçamentária, que é agravada pela assimetria de produtividade existente entre as empresas dos países do norte do bloco europeu e dos países mais afetados pela crise (em geral países mediterrâneos e da Europa Meridional).

Os críticos, predominantemente economistas franceses e italianos, defendem que as propostas germânicas conduziriam à queda da arrecadação tributária, o que limitaria a expansão das despesas governamentais. Isto implicaria em um  alto custo de produção e de nível de emprego perdidos. A combinação destas consequências poderia trazer efeitos políticos indesejáveis. Com efeito, a solução seria o aumento do dispêndio público, como forma de estimular a demanda agregada.

Infelizmente, o fato de cada país da área do euro possuir sistemas previdenciários, tributários e práticas orçamentárias distintas faz com que a maior experiência de integração que se tem notícia na história mundial fique refém de uma arquitetura institucional incapaz de solucionar questões que envolvam conflitos de interesse entre seus países-membros. Sobretudo aquelas questões relativas às políticas fiscais e às decisões orçamentárias.

Alguns países europeus  possuem alto grau de endividamento soberano, o que dificulta o financiamento de seus déficits a taxas reais de juros condizentes com o objetivo de sustentar suas dívidas no longo prazo. Assim, se é difícil para países como Itália, Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha rolar suas dívidas, poderia ser arriscado, do ponto de vista financeiro, tentar aumentá-las.

 Além disso, para a maior parte destes países, com a possível exceção da Itália, seria praticamente insustentável o aumento contínuo da despesa pública. Na hipótese de tal política não dar certo, restaria a estes países abandonar o euro como moeda e flutuar a sua taxa de câmbio. Mas esta decisão envolve altíssimo custo econômico e político. A própria Grécia – país mais afetado pela crise – não fez isto.

Portanto, as propostas germânicas de política econômica parecem mais sustentáveis, embora sejam mais difíceis de serem implementadas e possam trazer benefícios apenas daqui a alguns semestres.  

Uma medida de apoio a esta linha de ação seria a ideia de que o Banco Central Europeu aumente a compra de títulos de dívida italianos, lusitanos e espanhóis. Estes títulos vêm apresentando dificuldades de colocação no mercado de títulos europeu. Esta ideia, embora possua o custo de alguma inflação associada à emissão monetária para a compra destes títulos, possui maior aceitação tanto por Angela Merkel quanto para alguns dos economistas que criticam as propostas alemãs.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 19h43
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Juros reais altos causam inadimplência?

 

Guido Mantega afirmou na sexta-feira passada que o aumento da inadimplência é efeito dos altos juros cobrados junto aos tomadores de empréstimos.

Ocorre que as taxas de juros, tanto as de curto prazo como as de longo, vêm caindo nos últimos trimestres.

É desejável que tais taxas caiam mais? Isto irá depender da trajetória futura do IPCA e da leitura do Copom a respeito da evolução do cenário internacional e da evolução da demanda interna. De qualquer modo, as recentes quedas foram extremamente positivas, conforme já escrevi em posts anteriores.

De todo modo, se elas caem, creio que qualquer teste simples de Granger-Newbold mostraria que a inadimplência possui outras relações de precedência causal além das variações dos juros reais.

Entre eles, poderiam ser citados o peso dos aluguéis, da energia, das refeições fora de casa e das dívidas contraídas no passado sobre o orçamento dos tomadores de empréstimo. A contabilidade mental inadequada de muitos tomadores - que simplesmente ignoram o valor do dinheiro no tempo - também contribui para que o peso de financiamentos com juros elevados fique alto em relação aos seus ganhos.

Bem, se a inadimplência possui outros determinantes e não um único, é de se supor que Mantega fez uma análise política e não técnica.

Não quero defender os banqueiros, mas é certo que culpá-los rende dividendos políticos.

Ninguém enfatiza, por exemplo, os preços absurdos dos automóveis, da energia e da água no Brasil.

Estes setores dependem das políticas governamentais ou são controlados pelo próprio governo.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 12h47
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Inflação e política monetária

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 13h37
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O discreto erotismo da Macroeconomia

 

Um texto imaginativo, crítico e - pela prudência que revela - sábio.
A dica, via Facebook, é de Gustavo Franco e o texto é de Edmar Bacha: "O discreto erotismo da Macroeconomia".



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 13h31
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O futuro do passado: a previsão acertada de Nouriel Roubini

 

Leitor, no dia 14 de agosto de 2007, publiquei um cenário traçado pelo economista Nouriel Roubini.

Nunca imaginei, contudo, que tal antecipação durasse tanto tempo.

Abaixo, o post (na íntegra):

As frases são de Nouriel Roubini, que falou sobre a economia norte-americana anteontem no programa Roda-Viva da TV Cultura:

"Vejo a possibilidade de uma recessão aparente, embora tecnicamente recessão seja caracterizada por trimestres consecutivos de crescimento negativo, como ocorreu nos EUA em 2001. É um novo tipo de recessão, não uma recessão formal. O fato é que pode não se tratar mais de uma desaceleração econômica suave, mas de um pouso brusco (hard landing)"

"O crescimento deve ficar na casa de 2% no ano, muito abaixo do potencial. Em resumo, o consumo será mais fraco, o setor imobiliário estará ainda mais fraco e o investimento das empresas também se enfraquecerá. Podemos ter uma contração de 1 ponto porcentual no crescimento geral norte-americano".



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 21h57
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Pequenas bobagens, grandes economistas (parte I)

 

Leitor, começo hoje uma série de posts com algumas opiniões equivocadas de grandes economistas estrangeiros.

A ideia é apenas demonstrar que eles cometem erros e submeter estas opiniões ao crivo da história econômica.

Não quero, com isto, descaracterizá-los como grandes economistas que são. Apenas pretendo demonstrar que mesmo os melhores economistas não estão livres de, em determinadas circunstâncias, opinar equivocadamente.

Em uma entrevista concedida à repórter Maria Helena Passos, Merton Miller, Nobel em Economia de 1990 defendeu uma posição que, hoje em dia, soa como arcaica.

Fico imaginando o que ele diria hoje sobre a situação grega.

O texto foi extraído da Revista da Bovespa, edição especial de dezembro de 1997, páginas 24-27.

"As intervenções dos bancos centrais no mercado de câmbio mereceram duras críticas suas no passado. Por quê?

- Muitos países, particularmente os pequenos, deveriam se dar conta do que a Argentina percebeu. Deveriam desistir de ter suas próprias moeda e seu câmbio independente. Eles não conseguem lidar com o câmbio e só causam problemas. Mas o mundo está caminhando rapidamente para uma situação onde sobreviverá apenas um número pequeno de moedas independentes. E o papel dos bancos centrais será muito menor. Nos Estados Unidos, as autoridades monetárias aprenderam a dura lição que mostrou que não há razão de ser nas suas ações para tentar estabilizar o câmbio. Essas intervenções no mercado só causam problemas."



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 21h57
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Questões sobre a apreciação cambial

 

As principais autoridades monetárias do mundo desenvolvido (o Banco Central Europeu, o Federal Reserve, o Banco da Inglaterra e o Banco Central do Japão) estão realizando “hiperinjeções” monetárias em suas economias com a intenção de, por meio de políticas monetárias expansionistas, induzirem as mesmas a um maior nível de crescimento.

O excesso de moeda destes países acaba migrando para oportunidades de investimento em países emergentes. Como o Brasil possui alta taxa de juros reais e empresas baratas em seu mercado de ações, acaba atraindo muitos investimentos.

De qualquer modo, ainda que seja melhor resolver um problema de excesso de ingresso de recursos estrangeiros do que administrar a sua falta, como fizemos durante o período 1983-1995, a taxa de câmbio apreciada reduz a competitividade das empresas exportadoras. Assim, quando a taxa de câmbio cai muito, ressurge a discussão sobre a possibilidade de aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre algumas transações que envolvam capitais estrangeiros. Este aumento, em tese, eleva o custo destas transações a um nível que inibe, pelo menos no curtíssimo prazo, especulações no mercado cambial.

Esta medida é válida. Mas o problema com ela é que os especuladores desenvolvem inovações nos contratos financeiros que contornam a elevação de impostos. Sabendo disto, o governo tenta surpreendê-los, para que a medida surta efeito por mais tempo.

Como uma parte expressiva  do capital estrangeiro é proveniente de investimentos diretos estrangeiros (IDE) e de financiamentos de longo prazo (títulos emitidos por empresas sediadas no Brasil), algumas questões incômodas surgem, tais como:

• qual deve ser o tamanho do aumento da alíquota do IOF? Se ela for muito alta, ela pode gerar instabilidade na taxa de câmbio. Se for baixa, os especuladores cambiais a driblam e voltam, após algum tempo, à carga.

• como controlar capitais quando empresas e governo precisam de investimentos estrangeiros em infra-estrutura para fazer frente à eventos como Olimpíadas e Copta do Mundo. Ou quando a Petrobrás precisa de mais capital estrangeiro para explorar o pré-sal? Ou ainda quando a Vale precisa ampliar seus investimentos no exterior (o governo é o principal acionista desta empresa)?

É na resposta a estas questões que o debate emperra e não avança.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 23h22
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Mudança na política cambial do BC

 

Ontem a taxa de câmbio (R$/US$) beirou R$1,70 e o Banco Central voltou a comprar dólares nos leilões à vista.

É possível que este seja o novo piso informal com o qual o pessoal da política cambial do BC trabalhe.

De qualquer modo, a apreciação do real neste início de ano veio forte, junto com o protecionismo e a queda do saldo comercial.

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 16h18
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O futuro do passado: dependência da poupança externa

 

 

Primeiro, o gráfico:

 

 

Agora, o texto: em 07/03/2010, há quase dois anos atrás, publiquei aqui no blog o texto "Precisaremos de Poupança Externa" (reproduzido, na íntegra, abaixo). Nesta data, o saldo em transações correntes (ou poupança externa em porcentagem do PIB), era de 1,52%.

Pois é, no ano passado este saldo atingiu 2,26, conforme mostra o gráfico acima.

Não há problema algum em financiar o desenvolvimento com base em poupança externa, desde que o nível de investimento suba junto com o financiamento externo (o que não tem ocorrido).

Convém dizer também que, embora o volume de reservas seja recorde, o cenário internacional está conturbado e não há motivo para manter um nível tão elevado de taxa real de juros. Juros reais altos estimulam o ingresso de capitais estrangeiros de curto de prazo e desestimulam o investimento privado (duplo efeito negativo sobre os fundamentos macroeconômicos). 

É triste dizer isto, mas outra vez poderemos repetir um erro comum do passado: dependermos de poupança externa, enquanto mantemos taxas medíocres de investimento.

Abaixo, o texto a que me referi:

"O processo de crescimento brasileiro nos próximos anos pode ser pautado novamente pela necessidade de poupança externa.

A história do financiamento do crescimento brasileiro mostra que durante vários períodos dependemos do financiamento externo (seja na forma de capital de empréstimos bancários, intergovernamentais, investimentos diretos ou, mais recentemente, de investimentos em portfólio).

Produzir poupança interna realmente nunca foi o nosso forte (comentei sobre isto em posts anteriores).

Daí, para crescermos, temos a necessidade de obter financiamento pela geração de déficits nas transações correntes.

A Carta do IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro), publicada na revista Conjuntura Econômica de fevereiro, analisa este assunto.

Abaixo, reproduzo o trecho inicial do artigo.

"O financiamento internacional é inevitável, o que determina a necessidade de ajustes internos 

Como já foi abordado em Cartas do Ibre recentes, o Brasil é um país cuja baixa poupança doméstica parece sedimentada em escolhas político-eleitorais, realizadas em um ambiente democrático, e que não são facilmente reversíveis. Um sistema de Previdência generoso — com regras que garantem a aposentados e pensionistas o repasse dos ganhos de produtividade dos trabalhadores da ativa — é um dos principais fatores que explicam a baixa propensão a poupar dos brasileiros.1 Essa é uma questão que pode ser trabalhada por políticas públicas específicas, nas áreas fiscal e previdenciária, mas seria irrealista supor que a economia política que levou a um progressivo aumento das benesses concedidas pelo poder público vá ser radicalmente modificada de uma hora para a outra. 

Dessa forma, é razoável trabalhar com um cenário em que a baixa poupança das famílias é um dado da realidade nacional de difícil alteração, ao menos no curto e no médio prazo. Isso não significa negar a importância de medidas de política econômica que estimulem a poupança e mitiguem as limitações ao crescimento que aquela característica poderia eventualmente acarretar, mas apenas reconhecer que uma revolução nesse campo não está no horizonte. O corolário disso é que há necessidade de poupança externa para financiar o crescimento brasileiro. A atual expectativa, com a vigorosa retomada da economia desde meados do ano passado, é de que o país irá conviver muitos anos com déficits em transações correntes elevados, supondo — como já foi mencionado — que o atual equilíbrio político seja mantido. (continua no site da Revista Conjuntura Econômica).

1 A Carta do Ibre de dezembro de 2009 apresenta uma análise do efeito do modelo previdenciário brasileiro sobre a taxa de poupança."

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 23h05
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É a competitividade! Diz a Standard & Poor`s

 

Como foi noticiado, a agência de classificação de riscos Standard & Poor`s (S&P) rebaixou o rating da dívida soberana de nove países europeus.

A área do euro possui 17 países, dos quais nove tiveram notas referentes à qualidade de suas dívidas soberanas rebaixadas na sexta-feira passada. Foram rebaixadas em dois graus as notas de Itália, Espanha, Portugal e Chipre e em um grau as notas da França, Áustria, Malta, Eslováquia e Eslovênia.

Este rebaixamento, contudo, não causou maiores estragos. A ação do Banco Central Europeu (BCE), que vem resgatando maciçamente títulos públicos de alguns destes países (conforme postagem anterior) contribuiu para amenizar os ânimos. Ajudou também o fato de que a notícia não foi nenhuma surpresa para os mercados financeiros internacionais. Eles anteciparam a notícia. 

A S&P apontou a falta de compromissos críveis articulados entre as autoridades dos governos europeus, a troika (FMI, Banco Mundial e BCE) e as instituições financeiras dos países da área do euro. É difícil obter uma articulação institucional que leve a um grau mínimo de consenso quando existem assimetrias importantes nos balanços de transações correntes dos países do bloco.

Mas o que causa tais assimetrias? O que faz a Alemanha e a Holanda, por exemplo, apresentarem contas externas saudáveis enquanto outros países não conseguem isto?

A razão está na disparidade entre os graus de competitividade existentes entre as empresas dos países da União Europeia. Além disso, as empresas europeias são menos competitivas do que as norte-americanas e a dos países asiáticos. Os bancos europeus são menos competitivos do que os maiores bancos brasileiros.  Observa-se isto quando se compara, por exemplo, a produtividade das empresas portuguesas versus as alemãs, gregas versus suecas e cipriotas versus holandesas. Se compararmos, por setor, a produtividade de empresas europeias versus empresas norte-americanas, sul-coreanas e japonesas, também comprovaremos disparidade.

A Alemanha, a Suécia e a Holanda se situam na Europa Setentrional, enquanto Portugal, Grécia e Chipre (e também outros países com notas rebaixadas, como Itália e Espanha) possuem a maior parte de seus territórios na Europa mediterrânea. Alguns economistas se perguntam:  por que os países nórdicos e da Europa setentrional (à exceção da Áustria) possuem melhores ratings e níveis de competitividade do que os países situados na porção merdional? Há os que mencionam que os salários reais destes países são menores, considerando suas rendas per capita, do que os daqueles outros países citados. Outros apontam que a propensão marginal a poupar destes países é maior do que a daqueles. Há quem veja empresas mais inovadores no norte do que no sul da Europa. Mas o debate está aberto, pois não ainda há consenso sobre o assunto.

De qualquer modo, as dificuldades de equacionamento do grau de endividamento nos setores público e nos setores bancários existentes nos nove países são, para a S&P, apenas efeitos secundários desta disparidade do grau de competitividade.

Assim sendo, a solução para uma crise localizada nas finanças públicas e no setor financeiro europeu seria a implementação de políticas que levem a um “choque de produtividade” (leia-se: redução de custos) nas empresas do velho continente.

O paradoxal  é que o diagnóstico da falta de produtividade das empresas europeias não é um tema novo para os estudiosos na economia internacional e industrial.

Mas só agora, após o rebaixamento da S&P, ele pode vir a merecer  políticas mais adequadas.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h46
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A política do BCE e a valorização do real

 

Na sexta-feira passada a Standard & Poor`s (S&P)  reduziu o rating da França e de outros oito países da área do euro.

O mercado financeiro em geral e o mercado europeu de títulos, em particular, vinham apresentando moderada, porém segura, recuperação. Desde novembro passado, quando o italiano Mario Draghi assumiu o comando do Banco Central Europeu (BCE), esta instituição  passou a aumentar as operações de resgate dos títulos da Itália e da Espanha negociados no mercado secundário. Com o aumento da demanda por tais títulos, elevaram-se também os seus yields (rendimentos). Como os juros estão baixos (em torno de 1% ao ano), o aumento dos yields destes títulos (alguns pagam mais de 7% ao ano) fizeram com que as instituições bancárias retomassem suas aplicações neste tipo de ativo. A pura melhora da relação risco/retorno destes títulos fez com que a ação do BCE surtisse efeito por algum tempo. Melhoraram as condições de captação de recursos para financiamento das dívidas de países como Alemanha (sim, até ela teve dificuldades), Itália e Espanha.

Aliado à estas ações no mercado de títulos, o BCE continuou a utilizar medidas expansionistas de política monetária (entre elas o repasse para os bancos europeus de mais de 800 bilhões de euros nos últimos dois anos).  Se a operação de injeção de liquidez nos bancos norte-americanos ainda é questionada (como prova movimentos como o “ocupem Wall Street”), do outro lado do Atlântico o BCE implementa operação semelhante junto aos bancos da área do euro. Abaixo dos trópicos, no Brasil de 1995, o governo de Fernando Henrique Cardoso fez a mesma coisa e sofreu oposição duríssima. Apesar do pouco apelo político de tais medidas, o BCE age corretamente, assim como o Fed e o Bacen agiram nas crises de 2008 e 1995, respectivamente. Em política econômica a urgência imposta por algumas situações críticas muitas vezes exige pragmatismo e flexibilidade dos policy-makers.   

Draghi demonstrou, apesar do pouco tempo como chairman do BCE, tais qualidades. A crise da dívida dos países europeus é bancária e governamental. Em alguns países a iliquidez se concentra no setor bancário. Em outros o endividamento público é maior. Como o BCE não pode reduzir diretamente a dívida dos Tesouros dos países área do euro, sobra a alternativa de remediar o endividamento das instituições bancárias europeias. Assim, a operação de refinanciamento das dívidas bancárias conduzida pelo BCE é importante para a retomada da economia europeia.

A questão é que tal política de expansão monetária implica em depreciação do euro em relação ao dólar e ao real. A taxa de câmbio real/dólar já subiu mais de 4% apenas neste início de janeiro. Tudo indica que, em breve, teremos um real mais forte. Se estivéssemos com a inflação sob controle, teríamos um espaço ainda maior para a redução da taxa Selic (pois tal redução aliviaria a pressão altista sobre a taxa real de câmbio). O problema é que isto não ocorre. 

Assim, o que o ministro Guido Mantega chama de guerra cambial é o resultado de políticas temporalmente consistentes de expansão monetária promovida pelo BCE e pelo Fed (em sua política de “afrouxamento monetário quantitativo”) associada à impossibilidade de reduzirmos mais rapidamente a taxa básica de juros (há, ainda, o problema da caderneta de poupança indexada, de que já tratei em 2009 e que agora volta a ser discutido). 

O governo terá que lidar novamente com a tendência de valorização, a curto prazo, do real, uma vez que o rebaixamento do rating da dívida dos referidos países pela S&P reforça a política do BCE de resgatar mais títulos governamentais e de aumentar ainda mais a liquidez dos bancos privados europeus.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 17h30
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