Krugman talvez esteja exagerando ao ver o copo meio vazio.
Ou talvez não.
Da reportagem de Maurício Savarese, do UOL Notícias, em São Paulo:
"Prêmio Nobel Krugman vê risco de "bolha Brasil"
Os pesados fluxos de recursos para o Brasil ameaçam o país de haver uma bolha financeira semelhante às que atingiram México, o sudeste asiático e o leste europeu, afirmou nesta terça-feira o prêmio Nobel de Economia 2008, Paulo Krugman, professor da Universidade Princeton e colunista do "The News York Times", que participou de evento em São Paulo.
Em entrevista a jornalistas, Krugman disse que a superação da crise internacional pelo Brasil foi "uma história feliz", mas a sobrevalorização do real, a falta de infraestrutura e o baixo nível de educação da população brasileira são entraves importantes para que o país se torne uma "superpotência econômica".
"Dizer que o Brasil é uma boa história não é o mesmo que dizer que se tornará uma superpotência econômica no ano que vem, e é isso que os mercados estão dizendo", declarou Krugman.
O economista afirmou que o cenário econômico brasileiro "não é de apocalipse, não é a Argentina, mas não é saudável".
Eventos como a moratória da Dubai World, em um mundo com finanças globalizadas, podem aumentar a aversão ao risco dos agentes do mercado financeiro.
Isto pode ocorrer a despeito do fato de este evento ser delimitado geograficamente.
Não custa lembrar que, até o final de 2007 - mais de oito meses antes do default do Lehman Brothers - muitos ainda não acreditavam no tamanho da bolha do mercado de hipotecas subprime. O próprio Alan Greenspan declarou publicamente, após a crise, que não acreditava que muitos profissionais do mercado bancário e financeiro norte-americano pudessem agir de forma tão irresponsável e, não raro, desonesta na concessão de empréstimos e na realização de operações financeiras mais complexas.
Além das notícias de Dubai, os agentes econômicos ainda estão checando dados sobre a economia real dos países desenvolvidos, sobre os balanços dos principais bancos e instituições financeiras do mundo, sobre a inadimplência do setor imobiliário norte-americano (que ainda demonstra a fragilidade do setor) e sobre a confiança do consumidor (que está em recuperação).
Assim, eventos negativos que aumentem a aversão ao risco dos agentes, podem elevar a volatilidade dos mercados.
É claro que o Brasil - por ainda ser uma economia fechada, por possuir pauta de exportações diversificada e por ser impulsionada em boa medida pelo consumo interno e pela demanda externa por commodities - não é tão afetado por eventos ocorridos em países com os quais não possui relações econômicas importantes (como é o caso de Dubai).
Ocorre que, se por um lado, o Brasil felizmente não foi seriamente afetado pela crise financeira; por outro, a nossa retomada do crescimento ainda não se traduziu em elevação do taxa de investimentos para um patamar que garanta crescimento sustentável de longo prazo.
A retomada vem ocorrendo sob o impulso do aumento do consumo privado, dos ingressos de capital externo destinados a diversificação de portfolio e do dispêndio público.
Assim, qualquer instabilidade maior nos mercados financeiros internacionais mexe com uma das bases do tripé das fontes da crescimento (o capital externo de curto prazo).
É certo que o nosso nível de reservas é robusto para suportar uma saída forte de capitais.
Mas a taxa de investimento (formação bruta de capital fixo como proporção do PIB) ainda não retornou para o patamar anterior à crise. Patamar este que, a bem da verdade, também não era plenamente satisfatório.
Assim, se é fato que o Brasil alcançou uma situação macroeconômica sem precedentes históricos, há também muito por fazer no que diz respeito à elevação dos níveis de poupança privada e pública que possam garantir uma taxa de investimento mais segura.
Convém ressaltar que possuímos fragilidades de infra-estrutura que demandam mais ação (investimento) e menos retórica.
Evoluímos bastante no sentido de conquistar uma situação macroeconômica de estabilidade com crescimento.
Falta tornar este crescimento sustentável no longo prazo.
Isto só se faz com o aumento e a manutenção de uma taxa de investimento condizente com a taxa de crescimento que pretendemos (que é de cerca de 5% ao ano).
Para atingir esta taxa de crescimento, segundo alguns economistas, teríamos que investir no mínimo cerca de 23% do PIB.
O último dado fornecido pelo IBGE (Contas Nacionais), referente ao ano de 2006, revela que investimos somente 16,4% do PIB. A taxa de poupança, naquele mesmo ano, ficou em 17,6% do PIB.
Ainda é pouco.
É por isso que eventos negativos que afetem os mercados financeiros (como a moratória de Dubai) ainda mexem com os ânimos dos mercados financeiros brasileiros.
O brasileiro pode ter memória curta e esquecer que há menos de um ano alguns comparavam a crise atual com a grande depressão, falavam em armadilha da liquidez e até decretavam o fim do capitalismo financeiro.
Ocorre que os profissionais do mercado financeiro, no mundo todo, possuem memória de elefante.
Eles sabem o quanto perderam na crise financeira.
Aprenderam, pelo bolso, que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.
O efeito Dubai que afeta os mercados financeiros pelo mundo afora pode desencadear um ajuste em "W" (e não em "U") da crise financeira internacional que teve seu epicentro há cerca de um ano atrás?
Um ajuste em "W" significaria a ocorrência de um novo ciclo recessivo, ainda que potencialmente menos profundo do que o iniciado no ano passado.
É cedo para dizer qualquer coisa.
Vai depender dos desdobramentos da decisão tomada pelos Emirados Árabes Unidos.
Este país decidiu pedir aos credores das empresas Dubai World e Nakheel para adiar o pagamento de bilhões de dólares em dívidas.
Existe o temor de que esta decisão motive outras semelhantes, ao redor do mundo.
Vale lembrar que as bolsas norte-americanas estão fechadas hoje por causa do feriado ("Thanksgiving Day").
Amanhã, com a reabertura das bolsas norte-americanas, talvez tenhamos melhores condições de avaliar a repercussão mundial da decisão dos Emirados Árabes Unidos.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) divulgou dias atrás a informação de que disponibilizará uma linha de crédito de até R$ 400 milhões para cada uma das cidades que sediarão a Copa do Mundo de 2014.
Seria uma espécie de salvaguarda pública para o caso de uma determinada sede não conseguir reunir investidores privados em quantidade suficiente para bancar a construção das arenas.
O problema, conforme mostra a reportagem em destaque nesta edição do Brasil Econômico, é que muitos estados - a maioria, por sinal - atingiram o limite máximo de endividamento e só obteriam o empréstimo caso passassem por cima da Lei de Responsabilidade Fiscal.
É aí que está todo o risco. Detestada por governantes que adorariam torrar dinheiro público sem jamais ter que prestar contas disso, a Lei de Responsabilidade Fiscal é um dos instrumentos legais mais importantes feitos no Brasil dos últimos anos.
Baixada em maio de 2000 (no governo Fernando Henrique Cardoso, portanto) ela foi um marco importante na luta pela disciplina dos gastos públicos.
Estabeleceu um teto para o endividamento nas três esferas de poder e penas para aqueles que ultrapassassem os limites.
A partir dela, os políticos passaram a ter noção de que o gasto responsável do dinheiro público não é uma opção, mas uma obrigação. Mesmo com ela, nem todos praticam esse preceito.
Os benefícios que trouxe ao país são inegáveis - mas ainda incompletos.
Muitos políticos ainda insistem em considerar que seus projetos são mais importantes do que a necessidade de racionalizar os gastos públicos.
Uma Copa do Mundo é um argumento e tanto para os que desejam eliminar esse controle tão fundamental.
A sociedade precisa estar atenta e impedir que isso aconteça."
"FMI adverte Brasil sobre riscos de impostos do capital externo
São Paulo, 23 out (EFE).- O diretor do departamento da América do Fundo Monetário Internacional (FMI), Nicolás Eyzaguirre, defendeu a autonomia do Brasil para taxar a entrada de capitais estrangeiros, medida adotado nesta semana, mas advertiu sobre os riscos que a medida pode trazer para a economia.
O governo brasileiro começou a aplicar na terça-feira uma medida que taxa em 2% os capitais estrangeiros que entram no país para investimentos em renda fixa ou variável, a fim de evitar que o real continue se valorizando frente ao dólar.
"Esse tipo de medida pode dar algum espaço de manobra para evitar a valorização (da moeda). Não vejo problema em impor impostos à entrada de capitais, mas deve ser aplicado a toda entrada de capitais e não dar margem à especulação", advertiu Eyzaguirre em entrevista coletiva realizada em São Paulo.
Eyzaguirre apresentou no Brasil o relatório "Panorama Econômico Regional", divulgado em Washington sobre a economia da América Latina, o qual destaca que a crise mundial custará à região mais de US$ 150 bilhões.
O funcionário, especialista no tema de controle de capitais, e que foi integrante do Banco Central do Chile e ministro da Fazenda de seu país, enfatizou no entanto que esse tipo de medida não deve ser generalizado.
"O FMI não tem jurisdição sobre o controle de capitais nos países, mas temos uma apreciação: que sejam abrangidas todas as formas possíveis. Não é um problema ideológico, mas pragmático, e como fazê-lo é um problema do Brasil", ressaltou.
Do tributo aplicado pelo Brasil estão isentos os investimentos estrangeiros diretos (IED), já que o interesse do governo é "proteger a produção nacional, incentivar a volta de investimentos e preservar o emprego", segundo o ministro brasileiro de Fazenda, Guido Mantega.
Para conter a alta do real, que neste ano já se valorizou 33% frente ao dólar, o organismo aconselhou ao Brasil retirar parte de suas medidas de estímulo econômico.
"O Brasil é um lugar que o mercado financeiro olha com apetite e emerge com força no meio de uma situação mundial medíocre. O problema é como conduzir esse sucesso para manter o crescimento com um controle de capitais. Deve-se ter certeza de haver um sistema regulador forte", disse.
Segundo Eyzaguirre, "o Brasil deve ter capacidade institucional para (aplicar) medidas heterodoxas como impostos para a entrada de capitais". "
O momento é de euforia, o Brasil está na moda, tudo corre às mil maravilhas com a economia do país. Mas não custa fazer o papel do chato de plantão e dizer: é hora de o Ministério da Fazenda se preocupar um pouco mais com o futuro e parar de gastar. Ou, pelo menos, de parar de gastar tanto.
Entre janeiro e agosto deste ano, as despesas federais superaram em R$ 50 bilhões as dos primeiros oito meses de 2008 - enquanto as receitas do mesmo período caíram quase R$ 2 bilhões.
Em alta desde o início do ano, os gastos públicos são o único problema que parece ter força suficiente para tirar o Brasil dos trilhos nos próximos anos.
Eles estão muito elevados e tudo leva a crer que crescerão ainda mais.
Na tarde de ontem, um ex-ministro do Planejamento dizia, em tom de preocupação, que o descontrole dos gastos públicos pode fazer o país "perder o passo e levar pelo menos 15 anos para se recuperar".
Exagero de quem já foi e não é mais governo? Pode até ser. Mas a impressão que se tem é a de que Brasília está gastando hoje os recursos que entrarão amanhã no país.
Há, de fato, muito dinheiro chegando. Tanto assim que o dólar fechou em queda logo no dia seguinte ao anúncio do IOF de 2% sobre o dinheiro estrangeiro que chegar para aplicações na Bolsa e em títulos públicos. Ou seja: mesmo com a taxação, o país recebeu dinheiro capaz de derrubar a cotação da moeda americana.
É preciso reconhecer que, entre os estrangeiros que procuram títulos do governo e ações de empresas brasileiras, há pelo menos dois tipos de investidores.
O primeiro é o dos que realmente apostam porque acreditam no país e parecem ter chegado aqui dispostos a ficar.
O outro é o dos que, simplesmente buscam uma proteção contra a baixa do dólar. Esses últimos é que, daqui a pouco, poderão nos ouvir lamentar que seu dinheiro, "assim como veio, partiu; não se sabe para onde".
O único remédio contra a eventual fuga repentina do dinheiro que chegou tão depressa é não depender dele. Para nada."
Informa o Banco Central: o fluxo cambial de 1º a 16 de outubro somou US$ 10,489 bi - um ano antes, era muito menor, não mais de US$ 2,228 bi.
Do que entrou este mês, a maior parte foi para a conta financeira, cujo saldo foi positivo em US$ 9,910 bi, tendo sido registrados ingressos (compra de ações e títulos e investimentos) de US$ 25,495 bi e saídas de US$ 15,585 bi (remessa de lucros e outros). O saldo da conta comercial foi bem menor, de US$ 579 milhões, com exportações de US$ 6,469 bi e importações de US$ 5,890 bi.
De 1º de janeiro a 16 de outubro, o saldo do fluxo cambial está positivo em US$ 18,746 bi - com US$ 10,059 bi da conta financeira e US$ 8,687 bi da conta comercial. No mesmo intervalo de 2008, o saldo foi parecido (US$ 14,960 bi).
Como se vê pelas contas do BC, o saldo financeiro de outubro equivale a mais da metade do saldo do ano - efeito das transações relacionadas às ações do Santander Brasil (US$ 4,640 bi). A situação pode mudar - não muito, porém - a partir desta semana, com a cobrança da alíquota de 2% de IOF sobre o capital estrangeiro para ações e renda fixa. (21/10/2009). "
Após a instituição do IOF de 2% sobre o capital estrangeiro, o dólar subiu um pouco (1,9%, com fechamento em R$ 1,74) e a bolsa caiu um pouco mais (2,9%).
Neste ano, a taxa de câmbio nominal entre real e dólar já caiu 25%.
A Bolsa de Valores subiu 74%, praticamente recuperando, com sobras, as perdas da crise financeira do pós-setembro de 2008.
O problema é que esta alíquota do IOF não alivia muito a pressão baixista sobre a taxa de câmbio nominal.
Um norte-americano que tenha investido em renda fixa no Brasil embolsou cerca de 12% ao ano (computando os juros nominais, o diferencial da inflação interna e norte-americana e a valorização do real).
Rendimento para gringo nenhum botar defeito.
Um outro gringo hipotético que tenha investido em ações embolsou cerca de 130% em um ano (fazendo a mesma conta para uma aplicação em um fundo de gestão passiva que tenha como benchmark o Ibovespa).
Nos dois casos o rendimento de títulos de renda fixa e variável brasileiros compensa o custo de 2% de IOF.
O efeito desta medida sobre a apreciação da taxa nominal de câmbio tende a ser pequeno, mesmo considerando as intervenções do BC no mercado de câmbio.
Melhor teria sido adotar duas estratégias: controlar gastos públicos e promover uma maior abertura de nossa economia para ampliar a corrente de comércio (exportações mais importações como proporção do PIB).
O controle de gastos públicos permitiria, com uma política fiscal crível, a redução da taxa Selic. Com a redução da Selic ocorreria uma maior alívio, ainda que temporário, sobre o câmbio.
Reduzir tarifas de bens importados relevantes para a nossa indústria em troca de novos mercados para nossos produtos exportáveis seria uma política que, de forma sustentável, aliviaria a queda da taxa de câmbio nominal.
Ocorre que tal medida teria que fruto de um esforço conjunto de instituições como:
o Itamaraty (para adequar a nossa política externa a este novo objetivo);
o BNDES (para definir linhas de financiamento especiais para a aquisição de bens importados necessários ao nosso desenvolvimento industrial);
o Ministério da Agricultura (para definir os produtos exportáveis que fariam parte da negociação internacional);
o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (para definir os mercados internacionais que poderiam ser alvo de tal negociação);
Não há, contudo, uma discussão minimamente crível sobre a necessidade de abrir nossa economia.
Tenho falado sobre isto desde quando comecei a escrever o blog (em 2005).
É mais eficaz agir sobre o mercado cambial por meio de uma política comercial eficaz (importar mais para exportar mais) do que taxando o capital estrangeiro especulativo.
De qualquer modo, gasto público elevado, juro real praticamente congelado e câmbio com trajetória de apreciação não são um mix de política econômica adequado.
Bomba: economistas brasileiros acabam com a crise global!
Aprendi a ser, ao longo do tempo - em parte pelas vicissitudes da vida, em parte por inclinação pessoal - um otimista nas ações e um cético de coração.
Ceticismo que me permitiu publicar uns quatro posts que anteciparam a crise financeira.
Desde 2006, quando lecionava na UFPR a disciplina de Análise de Conjuntura, repetia o que vários bons boletins de conjuntura e economistas internacionais já apontavam: a bolha do mercado imobiliário norte-americano ia estourar em algum momento e o ajuste seria difícil.
Os posts não previram nada, porque não tenho bola de cristal.
Apenas endossei aqui no blog o que achava que eram boas análises macroeconômicas.
Fiz eco das opiniões de analistas do exterior de que a crise se avizinhava já no final de 2007 (o leitor pode conferir nos posts daquela ocasião).
Continuo a lê-los e ouvi-los atentamente para saber como andam as coisas lá fora (até porque o epicentro e a propagação da crises se iniciou no exterior).
Por isso que fico feliz em saber que Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI e autor de dois dos melhores manuais de macroeconomia já escritos, disse: "A recuperação começou. Os mercados financeiros estão se curando".
Aqui, infelizmente, a mídia e os políticos já decretaram o fim da crise no Brasil (pode ser...) e da crise global (ainda não...).
E aí eu pergunto: se ela começou lá fora e lá a recuperação está iniciando, conforme prudentemente afirmou o Blanchard, porque nós insistimos em crer que a crise global já terminou?
Possuímos indicadores macroeconômicos sólidos, como já escrevi aqui no blog.
Mas possuíamos indicadores ainda mais sólidos antes da crise financeira e ela pegou a maioria dos economistas de surpresa.
Quando a crise veio, muitos economistas apontaram o fim do mundo na esquina.
O apocalipse não veio.
Agora, o que é terrivelmente chato - enfadonho mesmo - é essa mania tipicamente brasileira de não possuir senso de urgência ( a estória da marolinha e as declarações de Guido Mantega anteriores à crise demonstram isso) e de cantar vitória antes da hora (a declaração de Blanchard demonstra isso).
Me incomoda reler as manchetes de um ano atrás para cá das capas das principais revistas de grande circulação do país.
O que se verifica nesta releitura é uma sucessão de análises equivocadas e erros de previsão que chegam a agredir o bom-senso de economistas prudentes.
Teve manchete que decretou o fim do capitalismo...
Agora leio várias manchetes na imprensa brasileira apontando o fim da crise nos Estados Unidos.
Entre estas opiniões equivocadas de analistas e jornalistas econômicos e a opinião abalizada do Blanchard eu fico com a segunda.
A recuperação global se inicia.
Espero que esteja próxima.
Mas no momento ela apenas se inicia.
A questão que me parece o óbvio ululante (que maioria não enxerga, como dizia Nelson Rodrigues): se a recuperação global apenas se inicia como afirmar com todas as letras que o Brasil já superou a crise, uma vez que estamos inseridos em um mundo globalizado em que crises se propagam com a velocidade de algumas semanas?
É até engraçado ver as opiniões de alguns analistas de mercado no Brasil que afirmam que a crise conômica terminou nos Estados Unidos e na economia global quando o Blanchard demonstra um otimismo apenas prudente.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, falou na audiência pública da Comissão de Orçamento do Congresso Nacional.
Afirmou que o Brasil deu lição na crise.
Meirelles - a quem a história creditará uma considerável parte dos louros da popularidade do presidente Lula e da consolidação da estabilidade macroeconômica do Brasil - está certo em suas colocações.
Meirelles não pratica o ufanismo econômico que caracteriza as falas de Lula, mas simplesmente reafirma o que os principais banqueiros centrais e estudiosos de Economia Monetária do planeta já disseram : a conduta do Banco Central brasileiro foi exemplar durante a crise internacional.
Um piso para a taxa Selic e uma jaboticaba para o regime de metas de inflação
O Brasil está criando um piso informal para a taxa Selic.
Se o projeto sobre a tributação da caderneta passar no Congresso, a taxa Selic não cairá tão cedo para qualquer valor abaixo de 7% (ver post abaixo).
Atualmente a taxa Selic está em 8,75% ao ano.
O mercado financeiro espera que ela fique neste patamar até o final do ano, pelo menos.
Isto se não subir até o início do ano que vem (a depender do vigor da retomada do PIB no quarto trimestre e do comportamento da inflação esperada).
O que dirá agora o pessoal que falava, há alguns poucos anos atrás, que vivíamos em um país de rentistas?
Viveríamos agora uma institucionalização do pequeno rentista, com a criação de um piso informal para a taxa Selic de 7% ao ano?
Digamos que, a título de exemplo, no futuro o país venha a ter uma deflação de 1% ao ano.
Os juros reais ficariam em 8% ao ano (pois o piso da Selic será de 7% ao ano).
Provavelmente continuaríamos a ter uma taxa básica de juros entre as maiores do mundo (e, pior, institucionalizadas informalmente pela jaboticaba do piso da Selic).
Imaginem o Banco Central solicitando ao Ministério da Fazenda uma nova revisão das regras da poupança para fazer a Selic cair...
O piso informal da Selic é, na prática, a criação de uma jaboticaba institucional para o regime de metas de inflação.
Já vimos, com a extinção da CPMF (tem gente que tem saudade..) o quanto custa eliminar uma jaboticaba institucional.
Se o governo queria incentivar as aplicações em fundos de investimento e não podia reduzir os tributos sobre a indústria de fundos, por que não extinguiu a fórmula do cálculo da TR que baliza o rendimento da caderneta de poupança?
Seria uma mudança simples, correta do ponto de vista dos incentivos de mercado e sem o ônus de perda de receita tributária.
O Brasil não aprende a viver sob regras de mercado e o aplicador brasileiro acostumou-se à renda fixa (o que implica em odiar correr riscos para obter um rendimento maior em aplicações de renda variável).
Juro bom é juro baixo e regulado pelas regras de mercado.
Em países desenvolvidos não existem aplicações com remunerações subsidiadas pelo governo.
As novas regras da caderneta de poupança fazem dela uma aplicação sem risco e subsidiada para pequenos poupadores.
Estas regras institucionalizam a aversão ao risco, desincentivam os investimentos em bolsa de valores e manifestam o desapreço governamental pelas regras de mercado.
Mostrou também que a recessão técnica pode ter acabado (na sexta-feira passada, o IBGE divulgou que o PIB brasileiro cresceu 1,9% no segundo trimestre, o que pôs um ponto final no período dois trimestres consecutivos de queda do PIB brasileiro).
O relatório Focus apontou retomada nas taxas de crescimento do PIB, inflação domada, juros e câmbio futuros estáveis ( porém com tendência de pequena alta para o ano que vem) e contas externas estabilizadas (mas em patamar pouco desejável).
Vejamos as principais conclusões do relatório:
·previsão para o PIB deste ano manteve-se estável (passou de uma ligeira retração de 0,16% para um recuo de 0,15%).
·previsão do PIB de 2010 manteve-se no patamar de crescimento de 4%.
·A projeção para a produção industrial de 2009 ainda é negativa, embora apresente ligeira melhora (passou de uma retração de 7,35% para uma queda menor, de 7,28%)
·A expectativa do PIB industrial de 2010 melhorou: o aumento esperado de 5,65% passou a ser de 6%.
·A expectativa sobre a taxa Selic, conforme a pesquisa Focus, aponta que ela terminará este ano no nível atual de 8,75% ao ano.
·Em relação à Selic vigente no final de 2010, a projeção da pesquisa é de que a taxa básica suba para 9,25% ao ano.
·Em relação ao IPCA de 2009, espera-se que este índice oficial de inflação seja de 4,30% (mais uma vez o Banco Central deve atingir a meta de inflação que, para este ano, é de 4,50%)..
·O IPCA esperado para 2010 é de 4,35%. Assim, o mercado espera que o BC atinja também a meta do ano que vem (que também é de 4,50%).
·A previsão para a taxa de câmbio aponta para um dólar cotado a R$ 1,81, no final do ano (a previsão anterior era dólar cotado a R$1,85).
·Espera-se que a taxa de câmbio nominal mantenha-se, no final de 2010, na cotação de R$ 1,85.
·A taxa média de câmbio prevista para 2009 permaneceu em R$ 2,01.
·O déficit previsto no saldo das transações correntes em 2009 caiu de US$ 15,05 bilhões para US$ 15 bilhões.
·Contudo, para 2010, espera-se que este déficit suba para US$ 22, 2 bilhões (a previsão anterior era que ele subisse para US$ 22,8 bilhões).
·O superávit comercial previsto para 2009 subiu de US$ 24,3 bilhões para US$ 25 bilhões.
·A estimativa do saldo comercial para 2010 se manteve em US$ 18 bilhões.
·A projeção de entrada de investimentos diretos estrangeiros em 2009 ficou em US$ 25 bilhões. A mesma estimativa para o ano que vem aponta um aumento para o patamar de US$ 30 bilhões.
O relatório Focus não aborda os indicadores fiscais.
A área cinzenta do cenário macroeconômico brasileiro está exatamente nestes indicadores.
A combinação de investimentos do PAC, política fiscal expansionista e eleições à vista não é certamente positiva para a situação fiscal do país.
" Ipea: queda de arrecadação refletiu economia fraca
BRASÍLIA - Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgado hoje mostra que a queda de arrecadação das receitas administradas de cerca de R$ 26,5 bilhões no primeiro semestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2008, está diretamente ligada à deterioração da economia brasileira e às desonerações tributárias adotadas pelo governo federal para minimizar os efeitos da crise econômica mundial no País.
Um dos motivos atribuídos pelo governo para a demissão de Lina Vieira da Silva do posto de secretária da Receita Federal foi justamente o forte recuo da arrecadação, que teria sido motivado pela mudança do foco da fiscalização das empresas. O diretor de Estudos Econômicos do Ipea, João Sicsú, evitou fazer polêmica sobre o assunto. "Fizemos o estudo baseados no número e concluímos que as causas para a queda da arrecadação estão exclusivamente relacionadas ao desempenho da economia e às desonerações", ressaltou.
A nota técnica do Ipea, intitulada "O que explica a queda recente da receita tributária federal?", foi elaborada pelos técnicos Sergio Gobetti e Rodrigo Orair. Na explicação do estudo, Gobetti ressaltou que da queda de R$ 26,5 bilhões - ou seja, de 10,6% no primeiro semestre ante o mesmo período de 2008 -, R$ 15,5 bilhões (ou 58,49%) se devem às desonerações feitas pelo governo. O restante está vinculado à redução do recolhimento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), principalmente de setores que têm um grande peso no PIB, como é o caso da indústria e área financeira.
No primeiro semestre, conforme estudo do Ipea, a diminuição da arrecadação foi duas vezes maior do que a do PIB. A tendência é de que com a retomada do crescimento econômico a arrecadação, aos poucos, dê sinais de recuperação."