Finanças computac. e Valuation


 
 

Tsunami monetário, juros altos e câmbio apreciado

 

As boas notícias das reduções da taxa básica Selic e das taxas bancárias de juros não podem ofuscar uma realidade que muitos parecem esquecer: nossa taxa de real de juro (em torno de 4% ou 4,5% ao ano) ainda é muito elevada. Além disso, ela possui uma espécie de "piso" (a caderneta de poupança) e contribui bastante para a atração de capitais e para a consequente apreciação da taxa de câmbio real.

Tudo isto pode ser resolvido, no seu devido tempo, se o governo continuar o seu esforço de: 

  • redução da taxa de juros básica,
  • estímulo para a redução dos juros bancários por meio de três dos seus principais agentes financeiros (Banco do Brasil,  Caixa Econômica Federal e o BNDES),
  • manutenção de uma condição fiscal estável; e
  • política cambial de "flutuação suja" (dirty floating). 

Mas é preocupante o fato de o governo ter passado a considerar, nas últimas semanas, que a causa principal da nossa apreciação cambial são as vultosas injeções de liquidez praticadas principalmente pelo Banco Central Europeu e pelo Federal Reserve. A criação de uma expressão de conotação nacionalista  - "tsunami monetário" - ajuda a disseminar este diagnóstico equivocado sobre a causa primordial da apreciação do real.

Cabe o reconhecimento de que o mix de políticas fiscal, cambial e monetária está correto. Os juros estão em queda, o governo se mostra prudente em sua política fiscal e continua realizando boas intervenções no mercado cambial (a combinação de acúmulo de reservas e a manipulação de alíquotas do IOF sobre operações especulativas no mercado cambial vêm se mostrando positivas). Este mix  vem sendo adotado pelo Brasil desde agosto de 2011, quando Alexandre Tombini, presidente do BC, ousou reduzir a Selic, antecipando a desaceleração do PIB em cerca de quatro meses.

Mas considerar o "tsunami monetário" como o culpado pela apreciação cambial (em vez de reconhecer que os juros reais elevados são a principal causa da mesma) é menos eficaz do que alterar a fórmula de cálculo da poupança e agilizar das medidas de reforma da previdência que estão para ser votadas no Senado Federal.

O governo pode ter, nos próximos meses, as chances de continuar  a reduzir o juros reais (hoje em torno de inéditos 4% ao ano), manter a disciplina fiscal, perseverar nas intervenções no mercado cambial (apenas nos primeiros dezoito dias deste mês de abril o BC acumulou cerca de US$ 4,7 bilhões em reservas), instituir um novo mecanismo de remuneração da caderneta de poupança e estimular o Senado a votar a criação dos fundos de previdência dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.  

Pode, enfim, continuar a manter uma política econômica que, na prática, se apresenta como eficaz. Mas o discurso que a emoldura (a hipótese do "tsunami monetário") é anacrônico e baseia-se em um diagnóstico equivocado.

Este discurso pode render dividendos políticos.

Mas não traz benefício algum em termos econômicos.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 22h20
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A questão da caderneta de poupança

 

É bastante oportuno o  artigo "Rendimento da Poupança: Nominal x Real", do professor Fernando de Holanda Barbosa. O artigo foi publicado na revista Conjuntura Econômica e está disponível aqui.  

O próprio governo admite que terá que mexer com a fórmula que calcula a rentabilidade da caderneta de poupança.

O problema é que -  por se tratar de um  assunto arriscado do ponto de vista político, embora essencial do ponto de vista econômico-financeiro - é difícil que, pelo menos neste ano eleitoral, o governo tome a iniciativa de abordá-lo da forma conveniente. 

Nesse sentido, as propostas sugeridas pelo referido autor são muito bem-vindas para o debate sobre o tema.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 00h03
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Cenário positivo aprecia o câmbio e anima Bolsas

 

O mês de janeiro terminou com menor incerteza do que a apresentada no último trimestre de 2011.

Os indicadores econômicos de países  como EUA, China, Alemanha e França animaram os mercados financeiros internacionais. Se a crise do euro ainda não terminou, há sinais de melhora na economia internacional. Ainda que Grécia e Portugal possam apresentar, nas próximas semanas uma situação de default de suas dívidas soberanas já não existe temor a respeito de uma possível crise de insolvência dos bancos europeus.

Ao contrário, a situação de liquidez das finanças internacionais melhorou no mês passado. O Banco Central Europeu promoveu empréstimos com juros de 1% a.a. para bancos europeus. Cerca de  meio trilhão de euros para mais de 500 instituições bancárias. Uma injeção de liquidez que pode ser apenas a primeira de outras que poderão vir. O Federal Reserve também realiza uma política monetária expansionista, com juros reais negativos e com a continuidade da política de resgate de títulos do tesouro norte-americano.

Maior liquidez no mercado internacional, juros internacionais no piso e países desenvolvidos com economias em compasso de espera são fatores que motivam maiores investimentos no  Brasil, com reflexos na apreciação de nossa taxa de câmbio (7,8%, em janeiro) e na valorização de ações das principais empresas da Bovespa (11,1%, no mesmo mês). Ajuda também o  os fatos de que nossos juros reais ainda são muito elevados (o que atrai capital), de termos uma das menores taxas de desemprego do G-20 e de havermos crescido mais de 2,5% no ano passado. 

Contudo,  embora as exportações tenham crescido 26,8% no ano passado, janeiro registrou déficit comercial de US$ 1,3 bilhão e mostrou notícias sobre práticas protecionistas na América Latina.

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 22h54
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A Selic e a próxima reunião do Copom

 

A produção industrial brasileira caiu 2,5% em novembro em relação à de outubro. A produção de automóveis, celulares, gadgets e televisores puxaram para baixo o PIB industrial (o menor desde novembro de 2009).

Na Europa e nos EUA os sinais são moderadamente promissores.

Os EUA surpreenderam com a maior elevação do seu PIB industrial em seis meses. Na  Europa, embora  a Alemanha tenha apresentado redução no seu nível de desemprego e  o Reino Unido tenha apresentado ligeira retomada de sua atividade econômica, os países mais afetados pela crise da dívida (Espanha, Portugal, Itália e, sobretudo, Grécia) ainda apresentam dificuldades na implementação de políticas fiscais contracionistas que possam reduzir seus níveis de endividamento público e políticas de socorro para bancos com alto endividamento privado.

Por isso, como teremos uma reunião do Copom nos próximos dias 7 e 18 de janeiro, muitos agentes apostavam, antes da divulgação destes indicadores, na manutenção de uma Selic de 10% ao ano neste ano de 2012. Agora, todavia, optam por esperar a divulgação do IPCA de dezembro, que sairá amanhã. Este indicador será essencial para saber se o Copom decidirá por uma queda de 0,5 ponto porcentual na taxa Selic.  Neste caso ele estará mais preocupado com o crescimento de 2012 e, portanto, mais alinhado com os interesses do Ministério da Fazenda e da presidente Dilma Rousseff. Se ele decidir pela manutenção da taxa, sinalizará que está mais preocupado com o cumprimento da meta de inflação de 2012.

As expectativas apontam que o IPCA de amanhã deverá apresentar um nível maior do que a meta oficial de inflação (de 6,5%) definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Conforme o relatório Focus, o IPCA de dezembro deverá registrar algo em torno de 0,54%. Assim, o ano de 2011 deverá fechar com uma inflação próxima de 6,55%. Com o descumprimento da meta, o BC terá que escrever uma carta aberta ao Ministério da Fazenda apresentando as razões para o não atingimento da meta.

Assim, não há ainda consenso no mercado de juros futuros sobre a manutenção ou um possível corte da Selic.

Existem também outros indicadores que certamente influenciarão a decisão do Copom, como a ata da última reunião do Fomc (comitê de política monetária do banco central norte-americano) e os dados norte-americanos sobre os setores de serviços e o mercado de trabalho.

De qualquer modo, a decisão da próxima reunião do Copom será importante para sinalizar o rumo da política monetária em 2012.

Servirá para saber se o BC voltou a se preocupar mais com a inflação ou se ainda está mais focado nos efeitos recessivos da crise econômica europeia sobre a atividade econômica brasileira.

É esperar para ver.

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 08h52
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Nova meta do CMN

 

O CMN (Conselho Monetário Nacional)  manteve a meta de inflação para 2012 em 4,5%.

São nove anos de meta de inflação igual.

Uma das razões para se fixar metas idênticas ou próximas é influenciar as expectativas para a inflação esperada pelos agentes. 

O Banco Central acerta em manter o nível da referida meta, pois baixá-la poderia levantar suspeitas por parte dos agentes, uma vez que ainda existe uma boa dose de incerteza sobre os indicadores do próximo semestre da economia internacional (sobretudo EUA e Europa).

Além disso, uma meta menor significaria, pela curva de Phillips, um nível de desemprego maior (e menor taxa de crescimento esperado para 2012).

Além disso, para garantir tal meta menor, uma taxa maior de juro real básico poderia ser necessária, o que significaria maior apreciação cambial.

Enfim, crescimento menor, juros maiores e câmbio mais apreciado é tudo o que ninguém espera.  

Nem  o CMN. 

 

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 21h34
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Inflação fora da meta


Conta de padeiro:

Recomposição tarifária em 2011 + recomposição dos preços da gasolina em 2011 + salários em alta em 2010 + crédito farto ao consumidor em 2010 + alta das commodities em 2010 + política monetária frouxa no período eleitoral de 2010 + política fiscal expansionista em 2010 = inflação fora da meta em 2011 e inflação esperada de 7% até o final do ano.

A presidente DIlma Rousseff não pode reclamar da herança deixada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da SIlva.

Mas o atual presidente do Bacen, Alexandre Tombini dificilmente elogiaria a herança deixada por Henrique Meirelles, ex-presidente desta instituição.

Na segunda metade de 2010, em pleno período eleitoral, quando a inflação já dava sinais claros de alta, Meirelles e o Copom não subiram a Selic, como fizeram em praticamente todo o período do mais longevo presidente do Bacen.

Por que não fizeram?

O ciclo político entrou no cálculo frio dos modelos econométricos do Bacen?

Convém ressaltar que não foram incomuns a falta de unanimidade nas  decisões do Copom no período mencionado. 

Resultado: sobrou para Alexandre Tombini a tarefa de iniciar um processo de desinflação. 

Um processo que já nasceu tardio e que, por isso, tornou-se mais custoso. 

Alexandre Tombini fazia do Copom, mas não deve se imputar à ele responsabilidade na derrapada da política monetária do final do governo passado.

Os votos do Copom são secretos e não dá para saber - nem seria conveniente, no final das contas - se ele foi favorável ou não às decisões do Copom deste período.

A notícia vai abaixo:

Reportagem de Pedro Soares, da Folha on line do Rio de Janeiro:

O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) registrou variação de 6,51% no acumulado dos últimos 12 meses, segundo pesquisa divulgada hoje pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Esse resultado é superior ao centro da meta do governo, de 4,5%, e acima do teto, que prevê dois pontos de tolerância (6,5%). A inflação acumulada nos últimos 12 meses é a mais alta desde julho de 2005, quando os preços subiram 6,57%.

O ministro Guido Mantega (Fazenda) disse que o resultado do IPCA de abril mostra que a inflação no Brasil já está desacelerando. Segundo ele, o indicador de abril já apresenta uma queda e está abaixo das expectativas do mercado.

Continua em : http://www1.folha.uol.com.br/poder/912147-inflacao-atinge-651-em-12-meses-e-supera-meta-do-governo.shtml



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 21h10
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A política monetária está correta

 

O Copom fez subir em 0,25 ponto porcentual a taxa Selic na última quarta-feira (20/4).

Este aumento já estava precificado pelo mercado. As transações com contratos futuros de juros já sinalizavam para uma elevação menor do que 0,5 ponto porcentual. Há alguns dias atrás, o mercado apostava em um aumento de 0,5 ponto porcentual.

Nos últimos dias a volatilidade do mercado de depósitos interfinanceiros foi alta. Do comportamento deste mercado na próxima semana dependerá a percepção da decisão do Copom.

Alguns economistas mais ligados ao mercado financeiro tem afirmado que o Bacen está agindo de forma menos técnica e mais política e que, portanto, existe uma  "tolerância" com a inflação.

Ademais, a decisão desta última quarta-feira não foi unânime, uma vez que dois integrantes dos sete do Copom votaram por um aumento de 0,50 ponto porcentual. Desde março do ano passado não havia uma decisão sem consenso, o que reforça a visão de que a evolução da volatilidade das negociações no mercado de DI, após o feriado de Páscoa, poderá responder a uma questão passa pela cabeça de muita gente: o Bacen de Alexandre Tombini está menos conservador do que o de Henrique Meirelles?

Pessoalmente, acho que o novo presidente do Bacen tem muito trabalho a fazer, mas, até agora, tem demonstrado sabedoria na condução da política monetária. 

Os juros reais básicos estão muito altos (ficaram agora em 12% ao ano). Além disso,  a inflação está aumentando, a conjuntura internacional apresenta incerteza, a taxa real de câmbio só faz cair, o crescimento econômico apresenta taxas positivas e o governo vem batendo recordes de arrecadação tributária.  

Se o Copom subisse mais os juros básicos, a inflação poderia cair mais rapidamente, mas o custo da desinflação seria muito alto.

Juros reais básicos mais altos significam câmbio real ainda mais baixo (com impactos óbvios sobre o setor exportador). Além disto, inibem o crescimento real, o nível de emprego e a arrecadação tributária.

Então, o custo de um processo de desinflação mais acelerado poderia ser: maior perda de competitividade no setor exportador, menor taxa de crescimento do PIB, redução na oferta de emprego e maior demora para obter superávits fiscais. 

Ninguém em sã consciência pode defender a inflação. Mas o fato é que, o atual repique inflacionário vem permitindo ao governo acelerar o atingimento de sua meta de superávit fiscal, além de atenuar os efeitos da apreciação do câmbio real e estimular o nível de emprego.

Isto é apenas um diagnóstico e convém ressaltar que não estou defendendo qualquer espécie de tolerância com o processo inflacionário vigente

Afirmo apenas que ela deve ser combatida não por bombardeios aéreos de elevação da Selic, mas por guerrilhas que a façam voltar ao patamar abaixo da meta.

Por isso a Selic foi bem calibrada pelo Copom na reunião da última quarta-feira.

Com efeito, a ideia subjacente a este post, leitor, é a de que o Bacen está agindo corretamente ao promover uma política de desinflação sem apelos à "choques" de juros e recorrendo também à mecanismos de aprimoramento da regulação macroprudencial e da  política tributária (aumento do IOF sobre o crédito, sobre transações de residentes no  exterior e sobre negócios envolvendo não-residentes).  



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 14h38
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Política monetária, bancos centrais e metas de inflação

 

O livro  “Política Monetária, Bancos Centrais e Metas de Inflação - Teoria e Experiência Brasileira” foi agraciado com XVI Prêmio Brasil de Economia -categoria livro de Economia.

O prêmio foi concedido pelo Conselho Federal de Economia (Cofecon).

Participei como um dos co-autores deste livro.

Ele foi organizado por Jose Luis Oreiro (UnB), Luis Fernando de Paula (UERJ) e Rogério Sobreira  (FGV/SP). 

Reúne textos de 21 dos mais renomados especialistas em Economia Monetária do Brasil. É referência obrigatória sobre o tema e, pelo fato de sua primeira tiragem estar esgotada nas livrarias, o livro terá uma nova tiragem com nova capa. 

Em 2009, os autores também receberam o Troféu Cultura Econômicaconcedido pelo Jornal do Comércio (Porto Alegre/RS) e pela Caixa Econômica do Rio Grande do Sul.

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 16h17
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Núcleo de Economia Financeira da UFPel

O Núcleo de Economia Financeira (NEF/UFPel) elabora estimativas semanais sobre os valores intrínsecos das empresas que compõem o IBrX-50.

O Núcleo é coordenado pelo Prof. Marcelo de Oliveira Passos e desenvolve suas atividades junto ao Centro de Pesquisas e Extensão em Economia Aplicada do Departamento de Economia da Universidade Federal de Pelotas (CEPEA/DECON/UFPel).

Os seguintes alunos do curso de Ciências Econômicas da UFPel fazem parte do NEF: Cândida Belarmino Busatto, Gian Cardoso da Silva, Luciano Ramos Gonçalves, Marcio Boéssio e Timóteo Scheunemann.

As estimativas são realizadas com base em um modelo computacional de valuation que utiliza uma base de dados atualizada semanalmente com informações das  demonstrações financeiras padronizadas pela CVM e das expectativas macroeconômicas do relatório Focus, do Banco Central.  

Trata-se de um modelo de desconto fluxos de caixa líquidos do acionista. 

Para maiores detalhes técnicos, o leitor pode consultar a bibliografia e os links sugeridos no blog Avaliação de Empresas - Valuation

Os primeiros resultados deste modelo apontaram algumas ações de empresas com upside considerável. São elas:

  • CCRO3 - CCR Rodovias ON NM: 14,40%.
  • ELPL6 - Eletropaulo PNB N2: 17,23%.
  • LAME4 - Lojas Americanas PN: 15,13%.
  • PETR4 - Petrobrás PN: 40,68%.

Foram utilizadas as cotações de fechamento de 08/06/2010.

Convém ressaltar que estas estimativas não são recomendações de compra destas ações.

O NEF as divulga apenas com o interesse na produção de séries temporais que possam ser úteis tanto para as análises do mercado financeiro quanto para o desenvolvimento de pesquisas na área de Economia Financeira.  

Semanalmente os resultados dos estudos do NEF serão divulgados neste blog, no blog citado acima e nos sites do Departamento de Economia e do Mestrado em Organizações e Mercados da UFPel.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 22h57
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Inflação de demanda

 

 

Ficou difícil duvidar que o Copom irá aumentar a taxa Selic na próxima reunião.

Hoje o  IPCA de março foi divulgado e ficou em  0,52%. 

Foi menor do que o de fevereiro (de  0,78%), mas a taxa acumulada de 12 meses já é de 5,17%.

Isto acende o sinal vermelho do BC, uma vez que o centro da meta de inflação para este ano é de 4,5%.  

Como o BC mira o centro da meta, conforme o próprio presidente do BC, Henrique Meirelles, afirmou em entrevistas recentes, a elevação da Selic no final deste mês é quase certa.

Olhando os fatores que impulsionaram o IPCA, dá para notar que  não estava incorreto o diagnóstico de inflação de demanda do BC (ao contrário da tese de alguns economistas que advogavam uma inflação de custos, conforme mencionado aqui no blog).

O fato de que a alta do IPCA foi decorrência da subida nos preços dos serviços e dos alimentos, refuta o diagnóstico de inflação de custos.

A alta nos preços de bens industrializados, sintoma de inflação de custos, simplesmente não ocorreu.  

De modo contrário, ficou mais difícil, com este novo cálculo do IPCA, refutar a tese de inflação de demanda.  



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 00h28
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O PMDB, Meirelles e a política monetária

 

Meirelles queria deixar o Banco Central para ser vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff.

Contava com o apoio do PMDB goiano que lhe franqueou as portas para uma possível candidatura ao governo de Goiás. 

Ocorre que o PMDB, como um todo, é movido por razões que a própria razão desconhece.

É um partido arenoso,  com muitas lideranças que possuem projetos políticos conflitantes com os interesses do próprio PMDB.

Além disso, ele agrega muitos macacos velhos em política.

Um deles é Michel Temer, que também quer ser o vice da Dilma.

O recado que o PMDB de Temer deu ao presidente Lula foi claro:

1) se Meirelles sair do BC para ser candidato ao senado ele poderá, a qualquer tempo, aceitar uma indicação para ser candidato à  vice-presidência na chapa de Dilma;

2) nesta hipótese, o PMDB racha e o apoio a Dilma vira pó;

3) assim, ou Meirelles fica no BC, ou assume a candidatura a governador de Goiás (com o apoio do PMDB goiano).

Meirelles resolveu ficar onde está, embora Dilma, pelo que ele mesmo afirmou, o prefira como vice.

Claro que, como moeda de troca, Meirelles exigirá apoio total do Executivo (inclusive do Ministério da Fazenda) para a execução de uma  política monetária contracionista voltada para o processo de desinflação.

O Banco Central considera que o aumento da inflação esperada é decorrente de uma demanda agregada excessivamente aquecida e não de efeitos sazonais (aumento das commodities, elevações nos custos de produção de alguns setores etc.). 

Com o diagnótico de inflação de demanda nas mãos, o Copom deverá elevar os juros básicos já na sua próxima reunião (nos dias 26 e 27 deste mês).

Não ficarei surpreso se o aumento for de, no mínimo, 0,75 pontos percentuais ( o que faria a Selic do final de abril ficar em  9,5% ao ano ou mais).

Muita gente no mercado financeiro considera que a reputação de conservadorismo do BC ficou um tanto arranhada pela decisão da última reunião do Copom e pela divulgação de uma ata confusa.

Portanto, na próxima reunião, o Copom elevará a taxa Selic mirando dois efeitos: (1) inibir o processo inflacionário; e (2) recuperar a sua reputação de conservador.

Meirelles já não possui um projeto político para este ano (mas se Dilma ganhar a eleição, ele pode ser premiado com um cargo importante em seu futuro governo). 

Isto equivale dizer que ele possui carta branca para fazer a política monetária que julgar conveniente.

Creio que ele não desejará transmitir ao mercado pouco grau de conservadorismo quando faltam apenas alguns meses para concluir sua gestão.

Sua biografia como banqueiro central mais longevo da história do país está quase completa.

O seu  jogo está quase ganho.

Pode chutar a bola (os juros) para o mato (o alto), se quiser.

Até por que ele sabe que o jogo é de campeonato.

Sabe que inflação fora do centro da meta é o que não querem  Lula, Dilma, o mercado financeiro e a torcida do Flamengo.  



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 01h28
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Política monetária de verdade

 

De acordo com Mario Bunge (físico e filósofo da ciência), um critério de verdade adequado é: "p é fatualmente verdadeiro se e somente se (a) p for compatível com o conhecimento básico, e se (b) p for consistente com a melhor evidência empírica para p".

Este autor complementa o raciocínio anterior argumentando que: "A verdade fatual e a refutação fatual, plenas ou parciais, são atributos de proposições relativas aos fatos. Atribuímos qualquer atributo deste tipo por força dos testes empíricos como uma série de observações. O resultado dessa operação é uma metaproposição, como por exemplo, ' a proposição p que descreve o fato f é verdadeira à luz do teste t'. Em suma, o caminho do fato no mundo externo para a verdade (ou a refutação) e a crença parece com o seguinte: Fato externo f -> Pensamento acerca de f (fato cerebral) = p -> Teste de p -> avaliação de p -> Crença ou descrença em p. Um teste de p envolve uma parte do conhecimento sobre o procedimento do teste (e. g., cromatografia) que não ocorre de maneira explícita na cadeia precedente. Do mesmo modo, a avaliação dos resultados dos procedimentos do teste envolve um bocado ulterior de conhecimento (e.g., teoria dos erros de observação ou de inferência estatística)".

Assim, de acordo com o critério de verdade proposto por Mario Bunge, as políticas monetárias e financeiras executadas pelo governo atual, capitaneadas por Henrique Meirelles, e pelo governo anterior (geridas por Gustavo Loyola, Gustavo Franco e Armínio Fraga, sobretudo este último) foram verdadeiramente bem-sucedidas.

Elas foram implementadas de forma compatível com a moderna teoria da política monetária moderna, conforme o critério (a), descrito acima.

E, conforme o critério (b), tais políticas não só vem se apresentando como consistentes com as melhores evidências empíricas, como também são apontadas como exemplos ou referências  positivas para os papers atuais sobre política monetária. 

A leitura dos papers de Frederic Mishkin(1) e a extraordinária reputação de Meirelles como banqueiro central, corroboram a afirmação acima.

Contudo, vale uma observação importante: este sucesso é uma construção histórica que remonta ao período inicial da criação do Plano Real e se manteve durante a gestão de Meirelles.

Nesse sentido, se muito, muito mesmo, foi feito por Henrique Meirelles, o mérito maior é da sociedade brasileira, representada por técnicos competentes e que se mostrou capaz de efetivar políticas de longo prazo e temporalmente consistentes.

Assim, se muitos consideram Lula "o cara", é lamentável que tão poucos considerem Meirelles como "o cara do cara", e que tantos técnicos brasileiros de competência comprovada e testada por várias crises financeiras, não recebam o reconhecimento devido.

Por outro lado, se temos uma política monetária e financeira de primeiro mundo, ainda estamos na era Mesozóica no que se refere às políticas educacional e  à eficiência dos Poderes Judiciário e Legislativo. 

Retrocedemos também na política externa, como evidenciam as recentes posturas do Itamaraty sobre os problemas causados pelo Irã e por Cuba. Eles causam indignação em qualquer país com política externa madura e menos propensa à afirmação no cenário geopolítico internacional do que a brasileira.

1. Entre os papers deste autor que estão no link acima, recomendaria a leitura de "Is Monetary Policy Effective During Financial Crises", o paper mais recente de Mishkin, e "Does Stabilizing Inflation Contribute to Stabilizing Economic Activity". 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 21h46
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Boa notícia

 

O ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão Paulo Bernardo  falou ao jornal Brasil Econômico.

Mostrou-se prudente e conservador nas revisões orçamentárias para 2010.

Isto é bom.

A entrevista está aqui.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 23h43
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Artigo no site de Joelmir Beting

 

O jornalista Joelmir Beting, da Rede Bandeirantes, publicou um artigo meu no seu site.

Título do artigo: Compensa elevar a Selic?  



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 21h56
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A estrutura bancária afeta o crescimento econômico?

 

Abaixo, um dos papers mais recentes publicados pelo NBER.

É sobre a área de desenvolvimento financeiro.

Após a crise financeira, vários estudos foram publicados sobre esta área, sobretudo os que tratam da influência das estruturas dos sistemas financeiros sobre o crescimento econômico.

Isto aumentou o interesse acadêmico sobre uma área cujos artigos eram considerados pouco conclusivos, na medida em que as estruturas financeiras baseadas em instituições mais especializadas e com relações financeiras "desintermediadas" (nas quais há a predominância do financiamento empresarial por meio da emissão de títulos no mercado de capitais em relação ao financiamento por intermédio de empréstimos bancários) eram consideradas como mais eficientes do que as estruturas bancárias basadas em bancos universais e relações financeiras intermediadas por instituições bancárias  (como o caso do sistema financeiro brasileiro, alemão e japonês, cada qual com as devidas especificidades). 

Tal convicção ficou abalada com a crise financeira norte-americana e com o contágio da economia do Reino Unido (justamente as duas economias que melhor representavam este tipo de estrutura financeira desintermediada).   

Nesse sentido, gostei muito de ler o artigo abaixo e o recomendo para todos os que se interessam sobre o tema.

O tema e o artigo são atualíssimos e a relevância do assunto me parece ser evidente.

Does the Structure of Banking Markets Affect Economic Growth? Evidence from U.S. State Banking Markets.

Autores: Kris James Mitchener e James C. Wheelock.

O abstract (os grifos são meus):

"This paper examines the relationship between the structure of banking markets and economic growth using a new dataset on manufacturing industry-level growth rates and banking market concentration for U.S. states during 1899-1929—a period when the manufacturing sector was expanding rapidly and restrictive branching laws segmented the U.S. banking system geographically. Unlike studies of modern developing and developed countries, we find that banking market concentration had a positive impact on manufacturing sector growth in the early twentieth century, with little variation across industries with different degrees of dependence on external financing or access to capital. However, because regulations affecting bank entry varied considerably across U.S. states and the industrial organization of the U.S. banking system differs markedly from those of other countries, we also examine the impact of other aspects of banking market structure and policy on growth. We continue to find that banking market concentration boosted industrial growth. In addition, we find evidence that a greater prevalence of branch banking and more banks per capita increased the growth of industries that rely relatively heavily on external financing or have greater access to external funding sources, while deposit insurance depressed growth in the manufacturing sector. Regulations on bank entry and other banking market characteristics thus appear to exert an independent influence on manufacturing growth in geographically fragmented banking markets. " 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 21h37
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