Bomba: economistas brasileiros acabam com a crise global!
Aprendi a ser, ao longo do tempo - em parte pelas vicissitudes da vida, em parte por inclinação pessoal - um otimista nas ações e um cético de coração.
Ceticismo que me permitiu publicar uns quatro posts que anteciparam a crise financeira.
Desde 2006, quando lecionava na UFPR a disciplina de Análise de Conjuntura, repetia o que vários bons boletins de conjuntura e economistas internacionais já apontavam: a bolha do mercado imobiliário norte-americano ia estourar em algum momento e o ajuste seria difícil.
Os posts não previram nada, porque não tenho bola de cristal.
Apenas endossei aqui no blog o que achava que eram boas análises macroeconômicas.
Fiz eco das opiniões de analistas do exterior de que a crise se avizinhava já no final de 2007 (o leitor pode conferir nos posts daquela ocasião).
Continuo a lê-los e ouvi-los atentamente para saber como andam as coisas lá fora (até porque o epicentro e a propagação da crises se iniciou no exterior).
Por isso que fico feliz em saber que Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI e autor de dois dos melhores manuais de macroeconomia já escritos, disse: "A recuperação começou. Os mercados financeiros estão se curando".
Aqui, infelizmente, a mídia e os políticos já decretaram o fim da crise no Brasil (pode ser...) e da crise global (ainda não...).
E aí eu pergunto: se ela começou lá fora e lá a recuperação está iniciando, conforme prudentemente afirmou o Blanchard, porque nós insistimos em crer que a crise global já terminou?
Possuímos indicadores macroeconômicos sólidos, como já escrevi aqui no blog.
Mas possuíamos indicadores ainda mais sólidos antes da crise financeira e ela pegou a maioria dos economistas de surpresa.
Quando a crise veio, muitos economistas apontaram o fim do mundo na esquina.
O apocalipse não veio.
Agora, o que é terrivelmente chato - enfadonho mesmo - é essa mania tipicamente brasileira de não possuir senso de urgência ( a estória da marolinha e as declarações de Guido Mantega anteriores à crise demonstram isso) e de cantar vitória antes da hora (a declaração de Blanchard demonstra isso).
Me incomoda reler as manchetes de um ano atrás para cá das capas das principais revistas de grande circulação do país.
O que se verifica nesta releitura é uma sucessão de análises equivocadas e erros de previsão que chegam a agredir o bom-senso de economistas prudentes.
Teve manchete que decretou o fim do capitalismo...
Agora leio várias manchetes na imprensa brasileira apontando o fim da crise nos Estados Unidos.
Entre estas opiniões equivocadas de analistas e jornalistas econômicos e a opinião abalizada do Blanchard eu fico com a segunda.
A recuperação global se inicia.
Espero que esteja próxima.
Mas no momento ela apenas se inicia.
A questão que me parece o óbvio ululante (que maioria não enxerga, como dizia Nelson Rodrigues): se a recuperação global apenas se inicia como afirmar com todas as letras que o Brasil já superou a crise, uma vez que estamos inseridos em um mundo globalizado em que crises se propagam com a velocidade de algumas semanas?
É até engraçado ver as opiniões de alguns analistas de mercado no Brasil que afirmam que a crise conômica terminou nos Estados Unidos e na economia global quando o Blanchard demonstra um otimismo apenas prudente.