O que fazer com nossa indignação?
O professor Duilio Berni me perguntou há uns posts atrás: o que fazer com nossa indignação?
Muito pessoalmente, creio que um debate sobre o fim do voto obrigatório seria mais importante do que debater a reforma política, posto que a discussão sobre esta última, no Brasil, tem sido nos últimos anos tão caudalosa quanto inútil.
Ocorre que não existe - neste país em que a estratégia política mais vitoriosa, desde o fim da ditadura, vem sendo o alinhamento irrestrito com o governo - nenhuma liderança crível que esteja disposta a gastar capital político com uma proposta politicamente incorreta.
Infelizmente, pois tenho a convicção de que o fim do voto obrigatório aumentaria o poder de decisão dos eleitores com maior nível de escolaridade e informação (que formam a opinião dos eleitores menos escolarizados e informados).
Além disso, reduziria a assimetria de informação no, por assim dizer, "mercado eleitoral".
É essa assimetria de informação que faz com que haja uma relação simbiótica perversa entre eleitores com baixa escolaridade e com pouquíssima informação e candidatos picaretas (fisiologistas, nepotistas, corruptos, corruptores, demagogos et caterva).
Políticos possuem institinto de preservação do próprio poder.
Esta preservação é em boa parte decorrência de:
- regras (tem regras?) por meio das quais o jogo político é jogado;
- sua reputação junto ao seu eleitorado;
- sua reputação junto ao seu partido;
- sua reputação junto à classe política;
- sua condição econômico-financeira;
- sua capacidade de formação de alianças com indivíduos que também possuam poder (presidentes de estatais, ministros etc.);
- seu carisma pessoal;
Repare, leitor, que é preciso ter muita vontade de arriscar capital político para defender uma proposta que contraria vários interesses como a do fim do voto obrigatório.
É por isso que me limito a deixar crescer meu bigode virtual (que cortarei, em breve, pois Sir Ney não durará muito...) e a propor idéias aqui no blog ("ideas shape the course of history", como dizia Keynes).
Estivesse em Curitiba e teria participado disto.
No meu Rio de Janeiro, em Copacabana, faria isto.
Aos vinte, fui cara-pintada em Curitiba.
Aos quinze, vi o comício das Diretas na Cinelândia, no Rio de Janeiro.
Por causa disto, não participo de passeatas virtuais no Twitter (o cúmulo do comodismo político).
O Twitter, os sites e os blogs servem para reunir gente em passeatas reais, com camisetas pretas, gritos na garganta e faixas.
Acredito que a transformação dos costumes políticos virá, se vier, pela batalha diária nas salas de aula e pela ação vigorosa da mídia.
Tento sublimar minha indignação tentando melhorar a parte que me cabe do nosso capital humano.
Pelas ótimas referências que tenho do professor Duílio Berni e pelos ótimos posts que publica em seu blog, sei que ele também faz isto no seu dia-a-dia.
No mais, espero que as passeatas de sábado do Movimento Fora Sarney cheguem à Pelotas.