Teoria dos jogos, Karpov e a crise econômica
Com a agradável tarefa de preparar meu curso de Microeconomia III na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), aproveitei para botar minha leitura em dia.
Reli o ótimo livro de Avinash K. Dixit e Barry Nalebuff: Thinking Strategically: The Competitive Edge in Business, Politics, and Everyday Life. New York: W.W. Norton, 1991.
Utilizo os capítulos do livro de Economia Matemática de Baldani, Bradfield e Turner para preparar minhas aulas de Teoria dos Jogos. Neste livro, a matemática utilizada não peca pelo excesso e os exercícios são simplesmente excelentes para alunos de graduação com base matemática.
Também aproveitei para concluir a leitura do livro do enxadrista Gary Kasparov: How life imitate chess (no Brasil, o livro foi publicado com o péssimo título: "Xeque-mate: a vida é um jogo de xadrez").
Este livro é um caso à parte.
É apenas razoável para quem se interessa sobre assuntos relativos à estratégi. Kasparov não se aprofunda na análise dos casos de estratégia sobre os quais escreve. Quem gosta realmente do assunto ganha mais se ler os dois livros de Dixit e Nalebuff.
Para quem não joga xadrez e quer saber mais sobre estratégia, o livro não passa de literatura de auto-ajuda de segunda linha.
Mas o livro do Kasparov é simplesmente excelente para quem, como eu, é enxadrista amador (sou daqueles que sonham um dia ganhar de um jogador de mais de 1800 pontos no ranking do software Chessmaster e, com muito esforço, perde uma partida de 25 a 30 lances para os "grandes mestre virtuais" deste programa, tais como: Lasker, Tal, Bottvinik, Capablanca, Korchnoi, Karpov etc.).
Surpresa nenhuma, diria o leitor: nada mais natural do que o melhor enxadrista que o mundo já produziu escrever bem sobre xadrez.
Ocorre que os insights que a leitura do livro de Karpov oferece para quem não é enxadrista é que realmente valem a leitura do livro. São insights inusitados. Suspeito que o próprio Karpov não os premeditou 10 lances à frente, como costumava fazer no tabuleiro (embora afirme, no livro, que não).
Exemplo: Karpov menciona que as combinações possíveis em uma partida de xadrez são maiores do que os átomos do universo (suspeitei da estimativa, mas são as palavras dele). Mas também diz que as jogadas racionais em um jogo de xadrez com dois jogadores realmente competentes são finitas e previsíveis.
Assim, um computador pode enfrentar e ganhar de Karpov, embora, como ele mesmo afirme, este mesmo computador não consegue ter intuição e criatividade para variar a estratégia em situações de jogo realmente decisivas (como as situações que frequentemente surgem do meio para o final de uma partida de xadrez). Exatamente por isto Karpov ganhou tantas partidas de programas de computador cada vez mais poderosos.
O leitor afeito à teoria macroeconômica pode, por analogia, tentar, a partir desta constatação de Karpov, supor que situações de instabilidade econômica ou mesmo de crises globais graves como as de agora, são similares às partidas de xadrez que escapam completamente do controle dos dois jogadores.
Estas partidas são caracterizadas justamente pelo grande aumento do número de jogadas possíveis a cada par de movimentos. Nelas, mesmo os analistas mais experientes ficam confusos, havendo divergências de opinião em relação ao jogo.
Ocorre que, no xadrez moderno - e sobretudo com a ausência de Karpov dos tabuleiros - tais partidas são cada vez mais raras.
Da mesma forma, quem examina a história econômica das nações constata que crises agudas como esta ocorrem raramente nas economias capitalistas desenvolvidas. São realmente muito raras as situações em que o nível de incerteza sobe a ponto de tornar os sistemas econômicos completamente imprevisíveis, desafiando qualquer grau mínimo de consenso entre os melhores economista.
Durante todo século XX a história econômica dos Estados Unidos registrou apenas duas crises prolongadas (que foram mais do que simples recessões que se resolvem após alguns trimestres de boa política econômica).
Até agora, é possível afirmar que estas duas crises foram piores do a atual. Piores tanto por seus efeitos sobre a economia global como pelos seus efeitos sobre a própria economia norte-americana.
Foram elas: a grande depressão e a estagflação da segunda metade dos anos setenta.
Portanto, situações em que a irracionalidade impera nos mercados (em qualquer um deles) são exceções e não são regra.
O problema é que há economistas que querem fazer crer que estas situações são a regra e que as boas políticas econômicas que se provaram boas em inúmeros casos são contraproducentes.
Em geral, são economistas que nunca perderam tempo enfrentando exercícios e leitura sobre Teoria do Jogos ou de história econômica.
Preferem criticar trabalhos consagrados de ganhadores de prêmios Nobel e de economistas com reputação acadêmica ilibada, posando de pensadores críticos quando não passam de defensores da racionalidade limitada.
Não falo do respeitável conceito de racionalidade limitada de Herbert Simon.
Mas da racionalidade limitadíssima provocada pelas sinapses destes pseudo-críticos em tempos que recomendam rigor analítico e opiniões sensatas.
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 02h12
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