Juros defensivos ou política monetária temporalmente inconsistente?
Há um debate sobre a posição recente do Banco Central em manter as taxas de juros básicas no patamar de 11,5% ao ano.
Alguns economistas favoráveis à postura do Bacen advogam que reduzir os juros agora poderia aumentar a volatilidade da taxa de câmbio e, por tabela, gerar inflação via aumento de custos.
No campo oposto, outros economistas comentam que o Bacen deveria reduzir os juros básicos para impulsionar o nível de investimento e consumo internos.
Bem, o Bacen elevou excessivamente a taxa de câmbio no primeiro semestre do ano passado para controlar uma inflação que era motivada pela alta mundial dos preços das commodities (provocada pela especulação com derivativos de commodities) e não pelo excesso de demanda sobre oferta agregada.
Ou seja, penalizou excessivamente a economia real, quando bastaria sinalizar com um viés de alta e elevar, na margem, a taxa básica de juros.
Errou no diagnóstico e, com efeito, errou na terapêutica, pois bastaria trabalhar melhor as expectativas em vez de elevar os juros.
Agora, todavia, o Bacen age corretamente ao não reduzir a taxa Selic e ao reduzir a taxa de recolhimento compulsório e reduzir o nível de incerteza no mercado bancário e interbancário com o uso de instrumentos de regulação financeira.
Se o Bacen tivesse reduzido a taxa Selic nas reuniões recentes do Copom a volatilidade da taxa real de câmbio aumentaria bastante com a saída de capitais. Além disso, o volume de posições vendidas no mercado de derivativos cambiais (contratos futuros, de opções, e a termo no mercado de câmbio) teria aumentado ainda mais do que aumentou.
O saldo em transações correntes está em queda e ontem soubemos que o saldo comercial também vem se reduzindo fortemente.
Assim, o problema que temos agora, já não é mais de sintonia entre as políticas fiscal e monetária, tal como apontei aqui no blog antes do default do Lehmann Brothers.
Se fizemos uma política fiscal e monetária completamente equivocada antes da crise financeira (tal como também já apontei aqui no blog), isto é uma questão passada.
Agora, a prioridade da política econômica é a solidez do balanço de pagamentos e não mais a obtenção de superávits fiscais.
Portanto, as políticas fiscal e monetária do primeiro semestre do ano passado foram inconsistentes com a prioridade vigente à época: a de manter a superávits fiscais mais expressivos.
Ocorre que agora as duas políticas ganharam em racionalidade, uma vez que respeitam a situação econômica brasileira e não estão em descompasso com as políticas praticadas no resto do mundo.
Henrique Meirelles está atento à situação aqui descrita.
Ao contrário de Lula e Mantega, que se mostram sempre dispostos a pressionar o Bacen pela queda da taxa de juros.
Espero, por vários motivos, que a crise não afete criticamente a boa situação da economia brasileira.
Entre estes motivos está a minha desconfiança de que Lula e Mantega não parecem ser bons gerentes de crise.