A Teoria da Escolha, na visão de Simonsen
O postulado da racionalidade é a base da teoria econômica. É ele quem diz que o agente econômico (homo economicus) quando se depara com várias escolhas possíveis opta por aquela que lhe maximize a utilidade. Este princípio filia-se à filosofia utilitária de Jeremy Bentham e constitui-se como base de toda a microeconomia neoclássica. Por extensão, a empresa maximiza o lucro diante de seu conjunto de possibilidades de produção.
Os desenvolvimentos mais recentes da Microeconomia (teoria da escolha envolvendo risco, teoria dos jogos etc.) baseiam-se também no postulado da racionalidade.
Em um pequeno ensaio intitulado "A Teoria da Escolha", que faz parte do seu livro "Ensaios Analíticos", Mário Henrique Simonsen, faz a melhor defesa que conheço do postulado da racionalidade.
Assim, leitor, quando algum economista vier repetir suas velhas críticas ao postulado da racionalidade, este ensaio do Simonsen pode ajudar a qualificar o debate.
Ele argumenta que, dado que ainda não se conhece de forma precisa o funcionamento do cérebro humano, volta e meia o postulado da racionalidade é alvo de críticas.
Uma das críticas mais comuns é a de que há muitas pessoas que se comportam de modo irracional. Simonsen considera ser esta uma crítica rudimentar no que se refere ao postulado da racionalidade (embora possa ser razoável diante de outras teorias de comportamento racional). Rudimentar porque não considera a possibilidade de cada indivíduo ter a sua função de utilidade particular e errar nas suas previsões sobre o futuro.
Simonsen afirma: "E, obviamente, uma teoria positiva deve informar como os indivíduos decidem, e não como o autor da teoria gostaria que eles decidissem. Uma objeção mais pretensiosa é a conjectura de que, na decisão individual, haja elementos tão imprevisíveis quanto a posição do elétron segundo a mecânica quântica. A conjectura não tem suficiente apoio empírico mas, ainda que fosse válida, reservaria ao princípio da racionalidade a capacidade de gerar funções de onda que permitissem estimar a probabilidade de cada decisão."
A crítica de Karl Popper também é refutada por Simonsen.
Popper diz que o postulado da racionalidade não é falseável empiricamente, dado que, a posteriori, sempre é possível acomodar uma função de utilidade capaz de justificar qualquer decisão do consumidor.
Simonsen diz que o postulado da racionalidade deve ser encarado como mero recurso taxionômico. O problema central que a teoria da escolha tenta enfrentar é como os agentes decidem em face de muitas possiblidades de escolha mutuamente exclusivas. Como os agentes costumam decidir (e não costumam empacar diante de decisões, tal como o asno de Buridan), a teoria possui forte evidência empírica. Assim, o recurso taxionômico do postulado da racionalidade permite que várias possibilidades de escolha sejam hierarquizadas por uma função objetivo.
Finalmente, cabe uma citação do referido texto de Simonsen (está na página 374 do livro):
"No atual estado do conhecimento, nenhum modelo econômico descreve como funcionam os neurônios de quem decide. Isto posto, os modelos são necessariamente analógicos, isto é, as hipóteses supõem que "tudo se passa como se...". Assim, criticar a teoria do consumidor sob a alegação de que o homem comum não consegue fazer tantos cálculos é uma refinada tolice*. O que interessa analisar é se o modelo de maximização condicionada da utilidade é ou não capaz de prever as demandas do homem comum.
Também a justificação de hipóteses por argumentos a priori só pode ser falaciosa, pois hipóteses não são tautologias. Friedman, por exemplo, alega que a idéia de maximização dos lucros é indissociável da teoria da firma, pois a empresa que tal não fizer não resistirá à seleção natural. A argumentação contém duas falácias: esquece que, no mundo real, há firmas que não sobrevivem à seleção natural; e ignora que uma empresa com algum poder de monopólio não precisa maximimizar seu lucro para sobreviver. No reverso da medalha, a maioria das contestações à hipótese de maximização de lucros parece extremamente frágil: evidencia-se apenas que as empresas não maximizam necessariamente o lucro a curto prazo, mas não se rejeita a possibilidade de maximização dos lucros esperados a longo prazo, que é o comportamento conjecuturável a priori. "
* Simonsen afirma que Fritz Machlup responde a essa crítica com o exemplo da ultrapassagem. Neste exemplo um carro quer ultrapassar outro em uma estrada de mão dupla. Só que este carro vê que existe um caminhão vindo, mais longe, na contramão. Se o motorista do carro fosse um físico ele poderia saber que teria que medir a sua distância inicial em relação ao caminhão, a velocidade do caminhão, a velocidade que precisa realizar para fazer a ultrapassagem com segurança e o tempo que precisa permanecer na contramão do caminhão. Poderia saber também que a ultrapassagem só deve se realizar se o tempo na contramão for menor do que a distância inicial em relação ao caminhão dividida pela soma de velocidades. Ocorre que o motorista do carro não é um físico e, ainda assim, executa a ultrapassagem como se fizesse todos estes cálculos.