Discurso de paraninfo da turma de 2012
Uma turma querida de alunos me convidou para ser paraninfo.
Desta pequena turma de nove alunos, cinco já obtiveram aprovação e estão matriculados em cursos de Mestrado vinculados à Anpec (Associação Nacional dos Cursos de Pró-Graduação em Economia).
Estes novos economistas são motivo de orgulho para os professores do Departamento de Economia da UFPel.
Abaixo, transcrevo o discurso que proferi ontem à noite:
"Inicialmente gostaria de saudar o Magnífico Reitor da Universidade Federal de Pelotas, Mauro Augusto Bukert Del Pino (representado nesta noite pelo pró-reitor Gilson Simões Porciúncula), o diretor do Instituto de Ciências Humanas, prof. Sidney Gonçalves Vieira, todos os demais professores aqui presentes, os formandos de nossa turma de Ciências Econômicas, seus familiares, seus entes queridos e amigos.
Me sinto honrado pelo convite para ser paraninfo dessa querida turma. Quero agradecer a todos vocês por terem, por esse gesto, reconhecido a qualidade do meu trabalho. Qualidade que não teria sido a mesma se eu não tivesse contado com a inteligência, a colaboração e a competência de todos os professores do Departamento de Economia, de vocês formandos, dos pró-reitores, do chefe de departamento Fábio Massaúd Caetano, da coordenadora do curso, Daniela Coelho e dos demais servidores da UFPel.
Meus afilhados, vocês sabem que a formatura é, além da conquista de uma meta pessoal almejada, o fruto do vosso esforço e da ajuda das pessoas da vossa estima. Uma conquista lapidada pelo vosso estudo e que merece ser compartilhada com as pessoas que vos apoiaram e que são importantes nas vossas vidas.
Parabéns a todos vocês pela conquista.
Cabe a mim, como paraninfo, dizer algumas breves palavras de aconselhamento e estímulo.
Mas o meu forte não é aconselhar.
Gostaria apenas de dizer que creio que em qualquer situação - no sucesso ou no fracasso - é fundamental sempre considerar as relações humanas.
Nada é tão importante na vida quanto as relações humanas. A Economia possui bases científicas dadas pelo estudo do comportamento humano, tanto no plano sócio-econômico, quanto no individual.
Nas altas e baixas do mercado financeiro estão presentes dois sentimentos demasiadamente humanos: a busca pelo ganho e o medo da perda.
Na microeconomia estão presentes os incentivos pelos quais as empresas, os governos, as leis e as instituições condicionam as relações entre trabalhadores, empresários, estudantes, governantes e outros agentes econômicos.
Na base da Macroeconomia estão as relações que determinam o nível de emprego, o consumo, a poupança, o investimento, a taxa de juros, a renda, a tributação, a despesa pública etc.
A Economia é a mais desenvolvida das ciências sociais e só alcançou esse estado porque associou as relações humanas e sociais ao rigor lógico-matemático e aos testes estatísticos e econométricos. De todo modo, são as relações humanas, base das relações sócio-econômicas, que sempre se constituíram no principal objeto de estudo da teoria econômica.
Para que um economista possa entender, viver plenamente e desfrutar dessas relações é preciso que ele não seja apenas um economista. Mas que ele pratique alguns valores universais, como a tolerância, a justiça, a moral e a razão.
A tolerância que faz ouvir e compreender opiniões contrárias e modos diferentes de pensar.
A justiça que nos permite conceder a cada um, sempre que nos é possível, aquilo que lhes pertence por direito e mérito, conforme nossa consciência e nossas leis.
A moral que é a prática da Ética, essa palavra tão repetida e deturpada em seu verdadeiro sentido. Pela moral, os economistas e demais cidadãos poderão pavimentar a trilha que conduz a um país melhor para as gerações futuras.
A razão que, embasada no conhecimento científico, permite tomar decisões mais sábias, menos erráticas e evitar as soluções mágicas que simplesmente não existem na Ciência Econômica.
Mas essas são apenas algumas divagações de um professor de Economia.
Como já disse, o meu forte não é aconselhar e por isso recorro aos versos do poeta inglês Rudyard Kipling. Em seu poema, cujo título é “Se”, ele soube expressar muito melhor do que eu como se deve praticar a tolerância, a justiça, a moral e a razão nas relações humanas, que são o alicerce das relações sócio-econômicas.
Diz o poeta:
“Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses, no entanto, achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar — sem que só a isso te atires;
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E tu serás um ser humano, ó meu filho!”
Que vocês, meus queridos afilhados, possam viver plenamente as relações humanas que já existem e as que existirão em suas vidas.
E que sejam felizes, com muita saúde, paz e êxito.
Obrigado a todos".
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h25

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