Política industrial "vertical" ou política econômica "horizontal"?

Há um falso e velho debate que contrapõe alguns economistas defensores de uma política industrial "vertical" (que beneficia com empréstimos a juros baixos direcionados a alguns setores específicos) e outros economistas que advogam uma política econômica "horizontal" (que beneficie todos os setores, de forma indistinta).

É o tipo de debate que simplifica uma questão complexa (um erro às vezes pior do que dificultar uma questão simples).

Sobre o assunto, me recordo de uma resposta que Stiglitz deu à uma pergunta feita por um jornalista brasileiro de uma conceituada revista de negócios.

Isto ocorreu em 1999, cerca de dois anos antes de ele ganhar o Prêmio Nobel (junto com Akerlof e Spence).

O jornalista perguntou se o uso de políticas industriais seriam adequadas ao caso brasileiro.

A resposta de Stiglitz revelou um certo espanto quanto à obviedade da pergunta: "Claro que sim, por que não?".

Alguns economistas que consideram que as chamadas políticas horizontais, que beneficiam todos os setores ao mesmo tempo, seriam mais eficazes do que a definição de setores prioritários para o investimento público.

Em geral, são economistas que percebem o Estado como um rival da atividade privada. Economistas que preferem discussões ideológicas cuja única finalidade é criar falsas questões e, ao cabo, falsos mitos.

Uma política industrial que eleja alguns setores-chave não exclui a necessidade de uma política econômica horizontal que melhore a infra-estrutura, reduza a burocracia, aumente a segurança jurídica, aprimore a educação e, finalmente, melhore o que se convencionou chamar de ambiente de negócios.

A Coréia do Sul, o Japão, a França, a Finlândia, a Suécia, a Alemanha e mesmo a China combinaram políticas industriais com políticas econômicas horizontais (sobre o assunto, o leitor pode consultar os livros "Kicking Away the Ladder", de Ha-Joon Chang, e "A Vantagem Competitiva das Nações", de Michael Porter).

Ricardo Haussman, um renomado especialista em política industrial, também adota esta posição.

Haussman é um economista que já foi formulador de política industrial e que hoje leciona em Harvard. Foi ministro da Coordenação e Planejamento da Venezuela no início dos anos 90 e pesquisou profundamente as cadeias produtivas da América Latina.

Cabe uma citação de Haussman, para o qual uma política industrial legítima para o restante da sociedade não diretamente beneficiada por ela, é aquela que atende aos seguintes requisitos:

“O primeiro é que se foque em atividades exportadoras e não em favor de um concorrente específico do mercado interno que indique uma prática protecionista. Além disso, requer certos princípios, como o da arquitetura aberta, no qual o governo tem de estar disposto a falar com a sociedade de acordo a como ela esteja disposta a se organizar e não somente com os grandes grupos, com associações organizadas. Em segundo lugar, o governo tem de melhorar sua participação em áreas de sua responsabilidade como o direito à propriedade , marcos regulatórios, sistemas de certificação, infra-estrutura, política de apoio às universidades etc”.

O primeiro critério de Haussman (o foco em atividades exportadoras) depende de uma taxa de câmbio minimamente competitiva, do crescimento da demanda mundial, de investimentos (em infra-estrutura, logística e P&D), da redução da burocracia aduaneira e de um maior grau de abertura econômica.

O atingimento do segundo critério de Haussman é muito mais complexo e  envolve o lento aprimoramento da eficácia dos arranjos institucionais. Esse é o único  caminho para um melhor ambiente para os negócios. Tal aprimoramento está associado à uma reforma política que permitiria maior velocidade na aprovação de medidas de modernização dos sistemas tributário e previdenciário.

A concessão de financiamentos de longo prazo a taxas menores para empresas dos setores exportadores e mais competitivos, tal como tem feito o BNDES, é um instrumento que não deve ser descartado. Todavia, trata-se de um mecanismo acessório e não estruturante (como seriam as reformas capazes de criar um melhor ambiente de negócios que beneficiasse todas as empresas).  O instrumento dos empréstimos direcionados de longo prazo é necessário para a sustentabilidade do crescimento brasileiro. Todavia, ele não é o instrumento suficiente para garantir esta sustentabilidade, de acordo com os dois critérios definidos por Haussman.

Enfim, o que turva esse importante debate é a postura de, por um lado, economistas francamente contrários às políticas de empréstimos do BNDES (sim, também acredito que houve excessos críticos nos últimos anos, mas é pouco razoável pensar em política industrial sem os financiamentos do BNDES) e, por outro, economistas que superestimam o papel desse banco de desenvolvimento que, por maior que seja, não pode se constituir em monopolista do fornecimento de créditos de longo prazo ao setor produtivo.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 00h33
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Discurso de paraninfo da turma de 2012

 

Uma turma querida de alunos me convidou para ser paraninfo.

Desta pequena turma de nove alunos, cinco já obtiveram aprovação e estão matriculados em cursos de Mestrado vinculados à Anpec (Associação Nacional dos Cursos de Pró-Graduação em Economia). 

Estes novos economistas são motivo de orgulho para os professores do Departamento de Economia da UFPel. 

Abaixo, transcrevo o discurso que proferi ontem à noite:

"Inicialmente gostaria de saudar o Magnífico Reitor da Universidade Federal de Pelotas, Mauro Augusto Bukert Del Pino (representado nesta noite pelo pró-reitor Gilson Simões Porciúncula), o diretor do Instituto de Ciências Humanas, prof. Sidney Gonçalves Vieira, todos os demais professores aqui presentes, os formandos de nossa turma de Ciências Econômicas, seus familiares, seus entes queridos e amigos.

Me sinto honrado pelo convite para ser paraninfo dessa querida turma.  Quero agradecer a todos vocês por terem, por esse gesto, reconhecido a qualidade do meu trabalho. Qualidade que não teria sido a mesma se eu não tivesse contado com a inteligência, a colaboração e a competência de todos os professores do Departamento de Economia, de vocês  formandos, dos pró-reitores, do chefe de departamento Fábio Massaúd Caetano, da coordenadora do curso, Daniela Coelho e dos demais servidores da UFPel.

 Meus afilhados, vocês sabem que a formatura é, além da conquista de uma meta pessoal almejada, o fruto do vosso esforço e da ajuda das pessoas da vossa estima. Uma conquista lapidada pelo vosso estudo e que merece ser compartilhada com as pessoas que vos apoiaram e que são importantes nas vossas vidas. 

Parabéns a todos vocês pela conquista.

Cabe a mim, como paraninfo, dizer algumas breves palavras de aconselhamento e estímulo.

Mas o meu forte não é aconselhar. 

Gostaria apenas de dizer que creio que em qualquer situação - no sucesso ou no fracasso - é fundamental  sempre considerar as relações humanas.

Nada é tão importante na vida quanto as relações humanas. A Economia  possui  bases científicas dadas pelo estudo do comportamento humano, tanto no plano sócio-econômico, quanto no individual.

Nas altas e baixas do mercado financeiro estão presentes dois sentimentos demasiadamente humanos: a busca pelo ganho e o medo da perda.

Na microeconomia estão presentes os incentivos pelos quais as empresas, os governos, as leis e as instituições condicionam as relações entre  trabalhadores, empresários, estudantes, governantes e outros agentes econômicos.

Na base da Macroeconomia estão as relações que determinam o nível de emprego, o consumo, a poupança, o investimento, a taxa de juros, a renda, a tributação, a despesa pública etc.

A Economia é a mais desenvolvida das ciências sociais e só alcançou esse estado porque associou as relações humanas e sociais ao rigor lógico-matemático e aos testes estatísticos e econométricos. De todo modo, são as relações humanas, base das relações sócio-econômicas, que sempre se constituíram no  principal objeto de estudo da teoria econômica. 

Para que um economista possa entender, viver plenamente e desfrutar dessas relações é preciso que ele não seja apenas um economista. Mas que ele pratique alguns valores universais, como a  tolerância, a justiça, a moral e a razão. 

A tolerância que faz ouvir e compreender opiniões contrárias e modos diferentes de pensar.

A justiça que nos permite conceder a cada um, sempre que nos é possível, aquilo que lhes pertence por direito e mérito, conforme nossa consciência e nossas leis.

A moral que é a prática da Ética, essa palavra tão repetida e deturpada em seu verdadeiro sentido. Pela moral, os economistas e demais cidadãos poderão pavimentar a trilha que conduz a um país melhor para as gerações futuras.

A razão que, embasada no conhecimento científico, permite tomar decisões mais sábias, menos erráticas e evitar as soluções mágicas que simplesmente não existem na Ciência Econômica.

Mas essas são apenas algumas divagações de um professor de Economia.

Como já disse, o meu forte não é aconselhar e por isso recorro aos versos do poeta inglês Rudyard Kipling. Em seu poema, cujo título é  “Se”, ele soube expressar muito melhor do que eu  como se deve praticar a tolerância, a justiça, a moral e a razão nas relações humanas, que são o alicerce das relações sócio-econômicas.

Diz o poeta:

“Se és capaz de manter a tua calma quando 
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa; 
De crer em ti quando estão todos duvidando, 
E para esses, no entanto, achar uma desculpa; 

Se és capaz de esperar sem te desesperares, 
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso, 
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares, 
E não parecer bom demais, nem pretensioso; 

Se és capaz de pensar — sem que só a isso te atires; 
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires 
Tratar da mesma forma esses dois impostores; 

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas 
Em armadilhas as verdades que disseste, 
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas, 
E refazê-las com o bem pouco que te reste; 

Se és capaz de arriscar numa única parada 
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida, 
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada, 
Resignado, tornar ao ponto de partida; 
De forçar coração, nervos, músculos, tudo 
A dar seja o que for que neles ainda existe, 
E a persistir assim quando, exaustos, contudo 
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!"; 

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes 
E, entre reis, não perder a naturalidade, 
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes, 
Se a todos podes ser de alguma utilidade, 

E se és capaz de dar, segundo por segundo, 
Ao minuto fatal todo o valor e brilho, 
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo 
E  tu serás um ser humano, ó meu filho!”

Que vocês, meus queridos afilhados, possam viver plenamente as relações humanas que já existem e as que existirão em suas vidas. 

E que sejam felizes, com muita saúde, paz e êxito.

Obrigado a todos".



Categoria: Notícia, citações e humor
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h25
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Schumpeter e o mercado

 

"Não existe instituição mais democrática do que o mercado."

Joseph Alois Schumpeter (1883-1950), economista austríaco.



Categoria: Microeconomia
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h41
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Ser economista

 

"O ferramental teórico do economista é útil para todo tipo de profissional, mas não me parece haver dúvida de que a formação do economista, o interesse primordial de quem quer ser economista, está em compreender e colaborar para a melhor organização da sociedade e satisfazer as necessidades das pessoas."

André Lara Resende (nascido em 1951), economista brasileiro que foi um dos formuladores do Plano Real.



Categoria: Notícia, citações e humor
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h35
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Definição alternativa de inflação

 

“Inflação é quando você paga cinquenta dólares por um corte de cabelo de dez dólares pelo qual você costumava, quando tinha cabelo, pagar cinco. “ 

Sam Ewing (1921-2001), escritor e jornalista norte-americano.



Categoria: Macro e Economia Internacional
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h34
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Desenvolvimento como liberdade

 

"Os fins e os meios do desenvolvimento econômico requerem análise e exame minuciosos para uma compreensão mais plena deste processo. É sem dúvida inadequado adotar como nosso objetivo básico apenas a maximização da renda ou da riqueza, que é, como observou Aristóteles, “meramente útil e em proveito de alguma outra coisa”. Pela mesma razão, o crescimento econômico não pode sensatamente ser considerado um fim em si mesmo. O desenvolvimento tem de estar relacionado sobretudo com a melhora da vida que levamos e das liberdades que desfrutamos. Expandir as liberdades que temos razão para valorizar não só torna nossa vida mais rica e mais desimpedida, mas também permite que sejamos seres sociais mais completos, pondo em prática nossas decisões, interagindo com o mundo em que vivemos e influenciando esse mundo."

Amartya Sen (nascido em 1933), economista indiano ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1998.



Categoria: Notícia, citações e humor
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h33
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Crise moral

 

“Aqueles que acreditam que a democracia liberal e o livre mercado podem ser defendidos apenas pela força da lei e da regulação, sem um senso internalizado de dever e moralidade, estão tragicamente errados.”

Lord Jonathan Henry Sacks (nascido em 1948), rabino inglês.



Categoria: Microeconomia
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h31
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Política x Economia = Intenções x Decisões

 

“A política contenta-se com as boas intenções. A economia não abre mão de boas decisões.”

Robert Solow (nascido em 1924) - economista norte-americano.



Categoria: Notícia, citações e humor
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h30
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A Economia dos incentivos

 

"A maior parte da Economia pode ser sintetizada em quatro palavras: 'As pessoas respondem aos incentivos'. Tudo o mais são apenas comentários". 

Steven Landsburg (nascido em 1954), economista norte-americano, professor na University of Rochester, em Rochester, New York.



Categoria: Microeconomia
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h28
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Exploração?

 

"A única coisa pior do que ser explorado pelo capitalismo é não ser explorado pelo capitalismo". 

Joan Violet Robinson (1903-1983) - economista inglesa.



Categoria: Notícia, citações e humor
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h27
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A Lei de Murphy da política econômica

 

“A Lei de Murphy da política econômica: os economistas têm pouca influência sobre a política econômica onde eles sabem muito e concordam bastante; eles têm muita influência sobre a política econômica onde eles sabem pouco e discordam de modo veemente.”

Alan S. Blinder (nascido em 1945) - economista norte-americano especialista em economia monetária.



Categoria: Macro e Economia Internacional
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h26
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O Estado e os indivíduos por John Stuart Mill

 

"No final das contas, o valor de um Estado é o valor dos indivíduos que o compõem."

John Stuart Mill (1806-1873) - filósofo e economista inglês.



Categoria: Notícia, citações e humor
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h24
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As regras do jogo

 

“Instituições são as regras do jogo em uma sociedade. Mais formalmente, representam os limites estabelecidos pelo homem para disciplinar as interações humanas. Em consequência, elas estruturam os incentivos que atuam nas trocas humanas, sejam elas políticas, sociais ou econômicas. As mudanças institucionais dão forma à maneira pela qual as sociedades evoluem através do tempo e, assim, constituem-se na chave para a compreensão da mudança histórica.”

Douglass North (nascido em 1920), economista norte-americano agraciado com o Prêmio Nobel de Economia em 1993.



Categoria: Microeconomia
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h23
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A Ciência na visão de Adam Smith

 

"A ciência é o grande antídoto para o veneno do entusiasmo e da superstição". 

Adam Smith (1723-1790), economista e filósofo escocês.



Categoria: Notícia, citações e humor
Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h22
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O futuro do presente

 

“Uma das regras mais importantes que eu tento lembrar quando faço previsões econômicas é que qualquer coisa que está para acontecer está acontecendo desde já". 

Sylvia Porter (1913-1991), economista e jornalista norte-americana.



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Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 20h21
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